Escassez de mão de obra qualificada paralisa obras e dispara custos na construção civil, aponta FGV
Com 82% das empresas enfrentando dificuldade para contratar e 70% sem acesso a profissionais experientes, setor convive com atrasos, custos elevados e risco de paralisações em obras de todos os portes.

Crise na construção civil: falta de mão de obra qualificada atrasa obras, encarece imóveis e ameaça crescimento do setor
A construção civil brasileira vive um cenário alarmante em 2025: a escassez de profissionais qualificados está paralisando canteiros de obras, elevando custos e comprometendo prazos de entrega de empreendimentos em todo o país. Uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgada recentemente, revela que 82% das empresas do setor estão enfrentando dificuldade para contratar novos trabalhadores, enquanto 70% relatam a ausência de mão de obra qualificada.
Os reflexos são sentidos diretamente nos cronogramas e nos custos finais dos empreendimentos. Obras atrasadas, reajustes de preços e maior pressão sobre equipes técnicas passaram a ser rotina em construtoras e incorporadoras de todo o Brasil.
A realidade nos canteiros de obras
Em muitos empreendimentos, o número de trabalhadores disponíveis é insuficiente. Um exemplo citado na reportagem do Jornal Nacional mostra a construção de um prédio de 20 andares que deveria empregar mais de 100 profissionais. No entanto, apenas 70 operários atuam atualmente na obra, o que obrigou a construtora a rever o prazo de entrega e recalcular os custos por unidade.
"É muito comum faltar entre 20% e 30% da mão de obra em nossos canteiros. Esse é o principal gargalo da construção civil hoje", afirma Sylvio Pinheiro, diretor da G+P Soluções, uma empresa especializada em obras e infraestrutura.
Inflação da mão de obra dispara
De acordo com o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), a mão de obra foi o item que apresentou a maior alta entre os componentes da inflação do setor nos últimos 12 meses: 9,75%. Ainda que os custos com materiais, equipamentos e serviços também tenham subido, o crescimento foi menos acentuado.
A valorização dos profissionais reflete a clássica lei da oferta e da procura. Com a escassez de trabalhadores experientes, como pedreiros, eletricistas, encanadores e mestres de obra, a disputa por talentos aumentou e os salários subiram — impactando diretamente no orçamento de construtoras e no bolso dos consumidores.
Uma geração que está desaparecendo
A situação é ainda mais crítica quando se busca profissionais com experiência prática.
"Hoje está cada vez mais difícil encontrar eletricistas, mestres de obra, pedreiros, encanadores e instaladores com conhecimento técnico. Não temos mais a mesma base técnica que existia no passado", lamenta Sylvio Pinheiro.
Um dos poucos exemplos remanescentes de excelência é Francisco, carpinteiro com mais de 30 anos de experiência.
“Eu amo essa profissão. Eu gosto de trabalhar. É o meu sustento, é o que levo para casa para minha família”, diz ele.
Mas histórias como a dele estão se tornando cada vez mais raras.
Impacto também nas pequenas reformas
A crise de mão de obra não afeta apenas grandes empreendimentos. Pequenas obras residenciais e reformas também estão sendo prejudicadas. Rebeca e Fernando, por exemplo, enfrentam um atraso de dois meses em uma simples obra para corrigir um vazamento de ar-condicionado. O motivo? Dificuldade em encontrar um pedreiro disponível — e com boa reputação.
“Os bons profissionais estão muito disputados. Se você quer fazer bem feito, tem que esperar”, afirma o arquiteto Fernando Santos, que está acompanhando a obra.
Obras atrasadas, entregas comprometidas e contratos reajustados
A pesquisa da FGV revela que, diante dessa crise, 21% das empresas da construção estão com atrasos significativos em seus cronogramas, e 18% já precisaram revisar os preços dos imóveis comercializados, repassando os custos mais altos aos clientes finais.
Isso representa uma ameaça real para o setor, especialmente num momento em que a economia está reaquecida e há uma grande demanda por imóveis novos e obras de infraestrutura.
Alerta para síndicos, gestores e investidores
O cenário atual acende um alerta também para síndicos, administradoras condominiais, investidores imobiliários e consumidores finais. A falta de mão de obra qualificada impacta diretamente na manutenção predial, em obras de retrofit, reformas estruturais e até nas pequenas intervenções do dia a dia nos condomínios.
Manter um bom relacionamento com prestadores de serviço, planejar com antecedência e valorizar profissionais qualificados tornou-se uma estratégia essencial para evitar prejuízos e retrabalhos.
Capacitação é o caminho
Para Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos de Construção do FGV/Ibre, o grande desafio do setor é investir em formação técnica e profissional.
"A economia está aquecida e todos os setores estão contratando, desde supermercados até o comércio. A construção civil está competindo por uma mão de obra que simplesmente não está sendo formada no ritmo necessário", explica.
A longo prazo, a saída passa pela valorização das profissões da construção civil, incentivo a cursos técnicos, parcerias com escolas profissionalizantes e qualificação contínua.
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