Baixo salário do síndico vira problema estrutural nos condomínios brasileiros, aponta especialista
Remuneração média próxima ao salário mínimo contrasta com a alta responsabilidade, o aumento de custos condominiais e a crescente inadimplência no país
Imagem ilustrativa O Censo Condominial 2025/26, consolidado com dados do IBGE, da Receita Federal e da uCondo, traz números que deveriam incomodar todos os moradores: a média nacional de remuneração do síndico é de R$ 1.520, ou seja, praticamente um salário mínimo (R$ 1.518), que deve ser reajustado para R$ 1.627 em 2026.
Para quem responde pela administração, pelo caixa, pela segurança e por riscos jurídicos de um prédio, esse valor revela um fosso entre responsabilidade e reconhecimento.
Os números também mostram uma grande desigualdade de remuneração conforme o estado, mas, em todos, o valor está abaixo das funções assumidas por um síndico. Entre aqueles com maior número de condomínios, a Bahia aparece com a maior média, R$ 2.381; o Rio de Janeiro, R$ 2.115; Santa Catarina, R$ 1.923; Paraná, R$ 1.469; São Paulo, R$ 1.311; Rio Grande do Sul, R$ 1.286; e Minas Gerais, R$ 1.189.
Hoje, o país tem 327.248 condomínios e cerca de 39 milhões de moradores, com mais de 500 mil pessoas trabalhando no ecossistema condominial.
Se queremos condomínios melhores, com manutenção em dia, regras respeitadas e contas equilibradas, precisamos que a função de síndico deixe de ser vista como “bico” voluntário e avance para um mercado profissional, capaz de entregar uma remuneração compatível com a complexidade do trabalho.
A sobrecarga dos síndicos aparece nas estatísticas de atendimento. Em 2025, os 6 mil condomínios que usam a uCondo registraram mais de 308 mil chamados. Os temas do dia a dia não são superficiais: 92.931 foram chamados administrativos, 86.317 foram reclamações e 84.643 foram pedidos de manutenção de áreas comuns. Ainda há questões sensíveis que geram conflitos, como animais, barulho e higiene.
Nesse cenário, o síndico é a pessoa que resolve conflitos, administra contratos, negocia fornecedores, interpreta normas e, muitas vezes, assume riscos.
Ao mesmo tempo em que a taxa condominial média subiu de R$ 413, no primeiro semestre de 2022, para R$ 516, no primeiro semestre de 2025 — o que significa um aumento de R$ 103 (24,9%) —, a inadimplência superior a 30 dias também cresceu, alcançando 11,95% no primeiro semestre de 2025, o maior patamar do período analisado.
Em termos regionais, a inadimplência preocupa especialmente no Norte (18,44%) e no Nordeste (13,52%), enquanto o Sudeste, que registrou a maior alta acumulada na taxa condominial, tem inadimplência de 11,78%, um pouco abaixo da média nacional. Essa situação cria um paradoxo: custos subindo e caixa encolhendo, com impacto direto na capacidade do síndico de manter serviços e realizar manutenções essenciais.
Um mercado que ofereça e incentive especialização na área dá argumento concreto para a revisão da remuneração. Um síndico certificado, com habilidades de planejamento, controle financeiro e conhecimento jurídico, entrega um condomínio mais harmônico, com resultados mensuráveis: menos brigas e causas judiciais, menor rotatividade de fornecedores, menos alterações em contratos ou arrecadações “surpresa” e, no médio prazo, a preservação — e até o aumento — do valor dos imóveis.
Um síndico é basicamente um gestor de uma empresa. Por isso, é preciso profissionalizar sua seleção, avaliando formação e experiência, com um salário à altura da responsabilidade. Esse é o preço do investimento na governança de um condomínio. Afinal, o que é barato pode sair bem mais caro no futuro.
Texto e fonte: Estadão

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