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Quadrilha dribla segurança e furta apartamentos de luxo em condomínios de oito estados

Criminosos teriam explorado falhas em procedimentos de segurança, usando informações de moradores e entrando pela porta da frente sem levantar suspeitas

G1/Fantástico
Quadrilha dribla segurança e furta apartamentos de luxo em condomínios de oito estados Foto: Reprodução

Pela porta da frente: quadrilha descobre brechas na segurança e furta apartamentos de luxo em oito estados


Segundo a polícia, grupo usava dados de moradores, redes sociais e falhas nos procedimentos de segurança para entrar em condomínios de alto padrão


Uma quadrilha itinerante especializada em furtos a apartamentos de luxo percorreu diferentes regiões do Brasil e conseguiu explorar brechas nos sistemas de segurança de condomínios em pelo menos oito estados.


Segundo as investigações apresentadas pelo Fantástico, os criminosos não dependiam necessariamente de arrombamentos, invasões pelos muros ou confrontos com funcionários. Em diferentes situações, conseguiram entrar pela porta da frente, utilizando informações de moradores, manipulação de cadastros e falhas nos procedimentos de controle de acesso.


Os casos chamam atenção para um ponto importante da segurança condominial: mesmo edifícios equipados com câmeras, reconhecimento facial, portarias remotas e outros recursos tecnológicos podem ficar vulneráveis quando os procedimentos não são seguidos corretamente.


Quadrilha conseguiu entrar usando sistemas de segurança


Um dos casos investigados aconteceu em Porto Alegre, em 7 de março. Uma mulher teve o rosto reconhecido pelo sistema de segurança do condomínio e entrou no prédio. Logo atrás dela, um homem também conseguiu acessar o local.


Pouco tempo depois, os dois deixaram o edifício carregando diversos objetos de valor, entre eles dinheiro em dólares e reais, talões de cheques, joias, bolsas de grife e um casaco de pele.


O episódio demonstra uma das estratégias atribuídas ao grupo: aproveitar o funcionamento normal dos mecanismos de entrada para não levantar suspeitas.


Suspeito alterou o próprio cadastro


Em Belo Horizonte, em 27 de fevereiro, a quadrilha teria utilizado uma estratégia diferente.


Segundo a polícia, um dos suspeitos se passou por morador e entrou em contato com a empresa responsável pela segurança do condomínio. Durante o contato, conseguiu alterar o cadastro, trocar o e-mail e inserir a própria fotografia no sistema.


A partir daquele momento, o sistema passou a identificá-lo como se fosse um morador legítimo.


O homem entrou acompanhado de outras duas pessoas. Um dos integrantes utilizou as escadas, enquanto os outros permaneceram no saguão tentando acessar determinado andar pelo elevador.


Eles não conseguiram prosseguir porque o equipamento exigia uma senha de acesso. Mesmo assim, os suspeitos permaneceram no local e continuaram se comunicando por celular.


Cerca de uma hora depois, deixaram o condomínio carregando uma mochila que não possuíam quando chegaram.


Mesmo carro apareceu em três estados


A investigação também identificou conexões entre ocorrências registradas em diferentes partes do país.


Um mesmo carro alugado apareceu relacionado a casos em Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo.


Em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, segundo a polícia, os criminosos conseguiram efetivamente furtar apartamentos. Já em São Paulo, houve uma tentativa.


Nas três ocorrências, os investigadores identificaram a presença do mesmo homem: Vinícius Scarpari.


Suspeito aparece em dezenas de ocorrências


A trajetória de Vinícius, segundo a investigação, começou na Zona Leste de São Paulo, especialmente entre os bairros da Mooca e do Belém, onde ele teria conhecido outros envolvidos.


De acordo com a apuração do Fantástico, o nome dele aparece em pelo menos 30 boletins de ocorrência, geralmente acompanhado de diferentes comparsas.


Os primeiros furtos identificados pelas autoridades ocorreram em 2020 e tinham como alvo casas térreas.


A partir de 2023, porém, o grupo teria mudado de estratégia e passado a mirar principalmente prédios de luxo.


Segundo as investigações, o modelo de atuação acabou se espalhando para pelo menos outros sete estados.


Redes sociais ajudavam a escolher as vítimas


A seleção das vítimas também fazia parte da estratégia.


Segundo a polícia, os criminosos utilizavam redes sociais para identificar pessoas que demonstravam possuir bens de alto valor.


Fotos de joias, roupas de grife, viagens e outros elementos da rotina poderiam indicar tanto o padrão financeiro quanto períodos em que os moradores estariam fora de casa.


Depois dessa primeira seleção, vinha a busca por informações pessoais.


Um delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul afirmou que os criminosos conseguiam obter dados por diferentes meios, inclusive na chamada Deep Web, onde, segundo a investigação, poderiam ser encontrados cadastros e informações relacionadas a moradores e condomínios.


A obtenção desses dados permitia que os criminosos conhecessem previamente nomes, apartamentos e até a organização dos edifícios.


Informações de atas condominiais também eram alvo


Entre os dados que poderiam ser utilizados estavam informações presentes em atas condominiais.


Segundo o delegado ouvido pela reportagem, criminosos poderiam conseguir acesso a cadastros que permitissem identificar moradores de determinados andares e apartamentos.


Esse tipo de informação pode parecer inofensivo quando analisado isoladamente, mas, nas mãos de criminosos, pode ajudar a construir abordagens mais convincentes e facilitar tentativas de acesso aos edifícios.


Criminosos exploravam a confiança da portaria


Em outro episódio ocorrido em 25 de abril, em Porto Alegre, a quadrilha teria novamente explorado uma falha relacionada à confiança no sistema de segurança.


Durante uma ligação, uma mulher se identificou como Maria, do apartamento 301, e solicitou a liberação da entrada de uma suposta neta chamada Laura Rocha.


No dia seguinte, uma mulher entrou no condomínio dizendo ser Laura, do apartamento 301.


Segundo a investigação, ela já estava previamente liberada e entrou acompanhada de Vinícius e outro homem.


O grupo seguiu até o oitavo andar. Vinícius, usando luvas, teria vasculhado o apartamento.


Na saída, os criminosos encontraram dificuldade para transportar um cofre. Para retirar o objeto do prédio, utilizaram um carrinho de compras do próprio condomínio.


O cofre era tão pesado que o carrinho chegou a tombar no saguão.


Segundo as autoridades, o furto provocou um prejuízo superior a R$ 800 mil em armas, joias e dinheiro.


Vítimas relatam sensação de insegurança


Além dos prejuízos financeiros, os casos provocaram impactos emocionais entre os moradores.


Vítimas dos furtos em Goiânia relataram à reportagem o medo provocado pela invasão de espaços que consideravam seguros.


Um dos moradores afirmou que a família passou a se sentir exposta depois do episódio.


Outra vítima contou que os filhos ainda enfrentam dificuldades para superar o ocorrido. Segundo ela, um dos filhos deixou de dormir no próprio quarto por medo de que ladrões voltassem ao local.


Os relatos mostram que os efeitos de um furto em condomínio podem ultrapassar a perda de bens materiais e atingir diretamente a sensação de segurança dos moradores.


Quadrilha tinha funções diferentes


As investigações indicam que os envolvidos possuíam funções específicas dentro do grupo.


Segundo a polícia, Vinícius era um dos principais executores e teria conhecimento especializado para arrombar cofres.


Outros integrantes ficavam responsáveis por auxiliar na entrada dos edifícios e na execução dos furtos.


Também havia os chamados “olheiros”, que permaneciam do lado de fora dos condomínios para acompanhar a movimentação e dar suporte aos demais integrantes.


A investigação aponta ainda que outro integrante atuava no financiamento das viagens, custeando despesas como passagens de ônibus, alimentação, combustível e pedágios.


Suspeito já havia aparecido em outro caso


Um dos integrantes investigados também teria aparecido em uma tentativa de furto ao apartamento do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em Alagoas, em 2024.


Segundo a polícia, Alberto Bernardo Alves já estava no local quando a tentativa ocorreu.


A presença de integrantes em diferentes ocorrências ajudou os investigadores a estabelecer conexões entre os casos e identificar o possível funcionamento da organização criminosa.


Polícia aponta “arquiteto” como líder


A investigação começou em Goiânia e, posteriormente, os policiais conseguiram identificar diferentes integrantes do grupo.


Seis meses depois, chegaram até Victor Gabriel da Silva, conhecido como Fubeta, apontado pela polícia como uma espécie de “arquiteto” da quadrilha.


Segundo as investigações, ele também realizava viagens frequentes, embora apresentasse uma rotina associada a destinos turísticos.


Imagens o mostram em locais como Fernando de Noronha e República Dominicana.


Em uma gravação obtida pelos investigadores, Fubeta teria afirmado que, dentro do crime, o nome seria um dos principais patrimônios e que o dinheiro seria consequência.


A polícia também identificou conversas relacionadas à comercialização das joias furtadas.


Produtos roubados eram divididos


Segundo um delegado ouvido pela reportagem, depois dos furtos os integrantes costumavam se separar e dividir os produtos roubados.


A estratégia, de acordo com a investigação, também teria como objetivo reduzir os prejuízos caso algum integrante fosse preso.


Dessa forma, cada envolvido permaneceria com parte dos objetos ou valores obtidos nos crimes.


Prisões foram realizadas


Policiais do Rio Grande do Sul e de São Paulo prenderam Vinícius quando ele saía de casa, na Zona Leste de São Paulo.


A Defensoria Pública, responsável pela defesa dele, informou que se manifestaria no processo.


Alberto Bernardo Alves estava sob custódia em um hospital da capital e, segundo a reportagem, preferiu não comentar a investigação.


A defesa de Alberto afirmou que se manifestaria nos autos e que os fatos seriam esclarecidos.


As polícias de São Paulo e Goiás também prenderam Fubeta.


Segundo um delegado de Goiás, ele teria ligação com uma facção criminosa paulista.


A reportagem informou que não localizou os advogados de Fubeta, de Renata Palermo, que estaria foragida, e dos demais suspeitos que aparecem nas imagens.


Qual é o alerta para os condomínios?


O caso deixa um alerta importante para síndicos, administradores, empresas de segurança, porteiros e moradores.


Para um delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul ouvido pelo Fantástico, os procedimentos de segurança podem tornar a entrada nos condomínios mais demorada, mas são necessários justamente para confirmar a identidade de quem tenta acessar o prédio.


A recomendação é verificar se a pessoa é realmente quem afirma ser e se possui autorização para entrar.


A investigação também demonstra que não basta investir em equipamentos modernos.


Câmeras, reconhecimento facial, fechaduras eletrônicas, portarias remotas e sistemas de controle de acesso são ferramentas importantes, mas precisam estar associados a protocolos eficientes e profissionais preparados para utilizá-los.


Como destacou um delegado de Goiás, segurança não envolve apenas equipamentos: também exige investimento na preparação das pessoas, nos procedimentos e na atenção aos detalhes.


Para os condomínios, o principal aprendizado é que uma brecha aparentemente pequena — como uma alteração cadastral sem validação adequada, uma autorização concedida sem confirmação ou o compartilhamento excessivo de informações — pode ser suficiente para comprometer todo o sistema de proteção.

Por isso, a revisão periódica dos protocolos, o treinamento das equipes, o controle rigoroso de dados dos moradores e a confirmação de autorizações devem fazer parte da rotina de segurança dos empreendimentos.




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