Moradores da Vila Mariana denunciam assédio imobiliário e temem dubailização do bairro
Residentes colocam placas com “Esta casa não está à venda” após corretores abordarem imóveis de forma insistente
Foto: Reprodução Moradores da Vila Mariana resistem à “dubailização” e denunciam assédio imobiliário
Quem passa pelo triângulo formado pelas ruas Dona Inácia Uchôa, Dona Brígida e Bartolomeu de Gusmão, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, percebe uma mesma placa em várias fachadas: “Esta casa não está à venda”. A iniciativa faz parte de um movimento organizado pelos próprios moradores, que se mobilizam contra a verticalização e a especulação imobiliária, com o apoio da página “Chega de Prédios” nas redes sociais.
O recado é claro: os moradores estão cansados do assédio constante por parte de corretores e incorporadoras, muitas vezes para comprar imóveis adquiridos há décadas. A pressão gerou sensação de insegurança e angústia, já que proprietários se veem encurralados em meio a prédios de luxo que mudam drasticamente a paisagem do bairro.
Meico Fugita*, professora de educação física que vive na Vila Mariana há 42 anos, relembra episódios marcantes:
“Quando minha mãe faleceu, um corretor veio dar os pêsames e, logo em seguida, já perguntou se eu queria vender a casa”.
Ela observa diariamente a transformação da região, que perde espaços de memória afetiva para dar lugar a empreendimentos de alto padrão, fenômeno que moradores chamam de “Dubailização” em referência aos arranha-céus luxuosos de Dubai.
Na praça Doutor Washington Pelúcio, pelo menos 16 casas foram demolidas para a construção de três torres da Cyrela, sob o projeto “The Palace”. Um dos empreendimentos terá uma torre de 33 andares, com oito apartamentos por pavimento, variando entre 76 m² e 129 m². O outro projeto contará com duas torres de 26 andares, quatro apartamentos por pavimento, com metragens de 139 m², 155 m² e 177 m² — totalizando 462 unidades. A Cyrela afirma que todos os projetos seguem a legislação vigente e desconhece condutas inadequadas atribuídas a terceiros que usem indevidamente seu nome.
Apesar de não quererem vender, moradores relatam visitas insistentes de corretores. Meico lembra que um corretor chegou a aparecer dez vezes em sua casa, levando contrato sem sua concordância, enquanto o barulho da demolição e construção afeta diretamente seu cotidiano.
A professora Cláudia*, que reside na região há 30 anos, alerta para a mudança de zoneamento implementada em 2023, quando o bairro passou de ZM (Zona Mista) para ZEU (Zona Eixo de Estruturação da Transformação Urbana). A alteração mantém o uso misto, mas dá incentivos para adensamento construtivo, intensificando o impacto da verticalização e gerando tensão entre moradores. Ela critica o fenômeno como “estrangulamento dos miolos”, onde grandes empreendimentos avançam das vias principais para as ruas menores, afetando trânsito, comércio e identidade local.
Fabiana Marechal, fotógrafa, relata a pressão antes mesmo de se mudar para a região:
“Um corretor entrou em contato com minha mãe, sugerindo que eu vendesse a casa. Fomos alvo de propostas constantes por telefone e email. É um estado de instabilidade psicológica e medo de precisar vender contra a nossa vontade”.
Zysman Neiman, biólogo que mora há mais de 30 anos no bairro, descreve o dilema vivido pelos moradores: “Ou negociava ou ficava ilhado no meio dos edifícios. Foi difícil ceder, apesar do apego emocional. Essa especulação está descaracterizando a história da cidade e desconfigurando modos de vida que gostaríamos de preservar”. Mesmo após colocar a placa de alerta, Zysman continua recebendo ligações e propostas, refletindo a intensidade da pressão do mercado imobiliário.
Segundo Valter Caldana, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, o adensamento em regiões próximas a metrôs e grandes avenidas não é, em si, negativo, mas precisa considerar a preservação de pré-existências, comércio local e cultura do bairro.
“É preciso equilíbrio: mais pessoas podem ter acesso a transporte público, mas sem que o cotidiano e as memórias sejam sacrificados”, explica, citando exemplos de integração urbana bem-sucedida, como o Conjunto Nacional e o Brascan Century Plaza.
A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), informa que a revisão da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (LPUOS) segue diretrizes do Plano Diretor Estratégico de 2014, priorizando adensamento construtivo e populacional próximo a estações de transporte público. Parte da área citada também está em processo de avaliação para tombamento, o que será considerado no licenciamento de novas edificações.


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