Roberto Fagundes
A coragem e a solidão do síndico diante das decisões difíceis na gestão condominial
Uma reflexão sobre a jornada solitária do gestor que precisa manter a integridade e as normas, mesmo quando a maioria pressiona pelo caminho mais fácil e conveniente
Nos últimos dias, uma cena capturada para um documentário, viralizou: um pinguim, contrariando o instinto de "bando" de sua espécie, decide abandonar a marcha segura do grupo. Enquanto centenas de seus pares seguem em uma direção previsível, ele se vira e caminha, resoluto e solitário, em direção ao horizonte vazio. Para os biólogos, uma anomalia comportamental. Essa cena, virou símbolo de coragem e autonomia para uns. Outros falam em solidão e tristeza. Para nós, que vivemos o ecossistema dos condomínios, uma metáfora visceral da gestão.
Todo síndico, em algum momento de seu mandato, acorda e percebe que se tornou aquele pinguim.
O Miragem do apoio coletivo
A jornada de um síndico geralmente começa cercada de "votos de confiança". Na assembleia de eleição, o clima é de coalizão. Promessas de ajuda surgem de todos os lados: conselheiros proativos, vizinhos entusiastas, grupos de trabalho e uma massa que aplaude a coragem de quem aceitou o desafio. É o conforto do bando.
No entanto, a gestão condominial possui uma característica peculiar: ela esfria conforme as decisões esquentam.
O apoio que era caloroso na eleição costuma evaporar quando o síndico precisa aplicar uma multa por comportamento inadequado, barrar uma obra irregular de um "aliado" ou implementar um rateio extra para salvar a estrutura do prédio - em abandono há anos. De repente, o grupo que caminhava junto aponta para uma direção, e o síndico, por dever de ofício e ética, precisa caminhar para a outra.
A tirania da maioria vs. o império da norma
O maior desafio da solidão do síndico não é a falta de companhia, mas a resistência à tirania da conveniência. É comum que uma maioria circunstancial pressione por decisões que flertam com a ilegalidade: "Síndico, ninguém se importa com essa norma do corpo de bombeiros, é muito caro, deixe para lá" ou "Não precisa de assembleia para isso, todos aqui concordam".
Aqui nasce o verdadeiro dilema do pinguim: seguir o bando rumo ao precipício da responsabilidade civil e criminal, ou enfrentar o vento gelado da desaprovação para manter o condomínio seguro?
O síndico que cede à pressão do grupo para ser "legal" ou "querido" é, na verdade, um gestor em fuga. A responsabilidade é um fardo individual. No tribunal, na prefeitura ou diante de um sinistro, o CPF que estará na linha de frente não é o da "maioria barulhenta", mas o de quem assina, de quem foi eleito!
O Custo da integridade
Caminhar sozinho dói. O isolamento no elevador, a falta de elogios e reconhecimento nos grupos de WhatsApp e o olhar de reprovação nas áreas comuns são o preço da integridade. Mas há uma beleza austera nessa solidão. O pinguim que desbrava o gelo sozinho não está perdido; ele está seguindo um chamado que os outros ainda não conseguem compreender.
A norma condominial, o regimento interno, convenção e o Código Civil são a bússola desse pinguim solitário. Eles garantem que, mesmo sob a neblina das discussões passionais, haja um norte. Ser síndico é entender que a sua missão não é ser amado, mas ser o guardião da coletividade — mesmo quando a própria coletividade, em um momento de miopia (quem sabe egoísmo, loucura, ego ou implicância?), trabalha contra si mesma.
Reflexão: O horizonte é de quem sustenta o passo
Se você, síndico ou síndica, sente hoje o frio da solidão em suas decisões; se o "apoio" da eleição desapareceu diante da primeira medida impopular, mas necessária: não retroceda.
A história do pinguim solitário nos ensina que a manada nem sempre tem razão. Às vezes, o caminho certo é aquele onde só cabem as suas pegadas. A gestão profissional e ética é, muita vezes, um exercício de coragem solitária.
Ao final do dia, quando as luzes das unidades se apagam, o que permite o sono do gestor não é o número de amigos que ele fez no condomínio, mas a certeza de que, quando todos pediram o erro, ele teve a bravura de caminhar sozinho em direção ao que é certo.
Se a ética te deixou sizinho no caminho, parabéns. Você está no caminho certo.
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SOBRE O AUTOR
Roberto Fagundes | Gestão Condominial
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