Enacon 2026 aponta os caminhos da nova gestão condominial: tecnologia, segurança jurídica, sustentabilidade e inovação
Evento reuniu especialistas, juristas, síndicos, administradoras e empresários para debater os desafios que transformarão a gestão condominial, o mercado imobiliário e as cidades nos próximos anos
Foto: Reprodução ENACON 2026 aponta os caminhos da nova gestão condominial: tecnologia, segurança jurídica, sustentabilidade e novas experiências de morar
Durante dois dias de programação intensa em São Paulo, o ENACON 2026 reuniu especialistas, juristas, economistas, empresários, síndicos, administradoras e profissionais do mercado imobiliário para discutir os desafios e as oportunidades que estão moldando o futuro dos condomínios e das cidades brasileiras.
Mais do que um encontro voltado exclusivamente ao setor condominial, o evento se consolidou como um grande fórum de reflexão sobre as transformações que envolvem gestão, tecnologia, legislação, sustentabilidade, comportamento humano e novos modelos imobiliários.
Ao longo dos painéis e palestras, uma mensagem ficou evidente: a gestão condominial está entrando em uma nova fase. O condomínio do futuro será mais conectado, profissionalizado, sustentável e integrado, mas continuará dependendo da capacidade humana de criar relacionamento, confiança e convivência.
Segurança jurídica e estabilidade das relações são desafios centrais
A abertura do ENACON 2026 foi marcada pela palestra magna da jurista e ministra Eliana Calmon, que abordou os impactos da insegurança jurídica no ambiente brasileiro.
Ao tratar do chamado “custo Brasil”, a especialista destacou como a lentidão do Judiciário, a instabilidade interpretativa das normas e a judicialização excessiva afetam empresas, investidores e também as relações dentro dos condomínios.
O debate reforçou uma das principais preocupações do evento: em uma sociedade cada vez mais complexa, síndicos e administradoras precisam atuar com mais conhecimento técnico, planejamento e segurança jurídica.
Revisão do Código Civil pode transformar gestão condominial
A discussão jurídica ganhou força no painel “Mudanças à vista”, que reuniu especialistas para analisar os possíveis impactos da revisão do Código Civil.
Entre os pontos debatidos estavam alterações envolvendo:
- personalidade jurídica dos condomínios;
- reconhecimento do síndico profissional;
- mudanças relacionadas à inadimplência;
- locações de curta temporada;
- regras de assembleias;
- uso de procurações;
- condômino antissocial;
- vagas de garagem e áreas comuns.
Os especialistas alertaram que alterações em conceitos como propriedade, contratos e responsabilidade civil podem gerar efeitos significativos no mercado imobiliário.
A principal mensagem foi que o setor precisa acompanhar de perto o processo legislativo, já que mudanças mal estruturadas podem criar novos conflitos em vez de solucionar problemas existentes.
Convenção condominial tem força, mas não é absoluta
Outro tema jurídico relevante abordado no ENACON 2026 foi o papel da convenção condominial.
Durante debate sobre o assunto, o advogado Márcio Spimpolo explicou que a convenção continua sendo um instrumento essencial para organizar a vida condominial, mas suas regras precisam respeitar a hierarquia das normas.
Questões como animais em condomínios, locações por temporada e novas formas de utilização das unidades mostram que os documentos precisam acompanhar a evolução da sociedade.
Segundo o especialista, uma regra prevista na convenção não necessariamente encerra uma discussão quando entra em conflito com direitos previstos em normas superiores.
Conflitos condominiais exigem mediação e apoio especializado
A convivência entre moradores também esteve entre os grandes temas do evento.
Uma assembleia simulada trouxe situações envolvendo saúde mental, violência doméstica, idosos, pessoas com transtorno do espectro autista e animais de assistência.
O advogado Dr. Jaques Bushatsky destacou que conflitos complexos não podem ser tratados apenas com decisões improvisadas.
Para ele, mediação, diálogo e busca por profissionais capacitados são caminhos fundamentais para evitar agravamento dos problemas.
A recomendação foi direta:
“Fala com quem sabe, não inventa.”
A ideia foi reforçada por Márcio Rachkorsky, que destacou o papel estratégico da comunicação na gestão.
Segundo ele, comunicar não é apenas transmitir uma informação, mas garantir que ela seja compreendida corretamente.
Comunicação se torna ferramenta estratégica dos síndicos
Com condomínios cada vez mais diversos e moradores mais participativos, a comunicação deixou de ser uma atividade secundária e passou a ocupar posição central na gestão.
Para Rachkorsky, síndicos e administradoras precisam comunicar melhor suas ações, equilibrando transparência, firmeza e proximidade.
A tecnologia ampliou os canais de contato, mas também aumentou a necessidade de clareza, planejamento e responsabilidade na forma como as informações são transmitidas.
Humanização ganha espaço no futuro da gestão condominial
Apesar do avanço tecnológico ter sido um dos grandes assuntos do evento, o ENACON 2026 também reforçou que inovação precisa caminhar junto com pessoas.
No painel “Humanização como Jornada Obrigatória”, especialistas defenderam que moradores não devem ser tratados apenas como unidades imobiliárias ou números.
Cada pessoa possui expectativas, necessidades e diferentes formas de viver.
A discussão mostrou que o condomínio moderno precisa ser pensado como um ambiente de convivência, pertencimento e qualidade de vida.
Luxo como inteligência aplicada à experiência
Essa visão foi ampliada durante a palestra de Carlos Ferreirinha, referência em gestão e experiência de consumo.
Segundo o especialista, o mercado entrou em uma era na qual qualidade deixou de ser diferencial para se tornar obrigação.
Hoje, consumidores comparam experiências vividas em hotéis, hospitais, companhias aéreas, restaurantes e outros serviços com aquilo que recebem dentro dos condomínios.
Para Ferreirinha, luxo não está apenas no preço, mas na capacidade de criar valor percebido.
Na gestão condominial, isso significa atenção aos detalhes, atendimento, organização, comunicação, ambientes e todos os pontos de contato com moradores e visitantes.
Inteligência Artificial inaugura uma nova era na gestão condominial
Entre os temas mais marcantes do ENACON 2026 esteve a transformação digital impulsionada pela Inteligência Artificial.
No painel “Inteligência Artificial e Tecnologias Aplicadas — A Revolução das Plataformas Integradas: Transparência 360° para Síndicos e Condôminos”, Júlio Paim e Rodrigo Lobo apresentaram reflexões sobre o futuro das administradoras, a automação de processos e a evolução da gestão condominial.
Júlio Paim apresentou a trajetória das administradoras ao longo das últimas décadas, dividindo essa evolução em diferentes fases:
- Administradora 1.0: era das pastas físicas;
- Administradora 2.0: início da digitalização;
- Administradora 3.0: consolidação dos sistemas;
- Administradora 4.0: integração de produtos e serviços;
- Administradora 5.0: inteligência artificial e plataformas inteligentes.
Segundo o especialista, o mercado passa por uma mudança estrutural.
As administradoras precisam deixar de atuar apenas como prestadoras operacionais e assumir um papel estratégico dentro dos condomínios.
A tecnologia aparece como ferramenta para aumentar eficiência, reduzir tarefas repetitivas e ampliar a capacidade de atendimento.
Mas o avanço tecnológico exige preparação.
Um dos alertas mais importantes do painel foi:
“A IA não corrige bagunça. Ela escala a bagunça.”
A frase sintetizou a necessidade de empresas organizarem processos, dados e cultura interna antes de implementar soluções baseadas em inteligência artificial.
Produtividade passa a definir a proximidade com moradores
Na sequência, Rodrigo Lobo aprofundou a discussão sobre o desafio de equilibrar escala e relacionamento.
Segundo ele, muitos síndicos conquistam reconhecimento justamente pela proximidade com moradores, mas enfrentam dificuldades quando passam a administrar mais condomínios, equipes e demandas.
O problema, segundo o especialista, não está na proximidade.
Está na produtividade.
Uma das reflexões mais marcantes foi:
“O morador não mede proximidade em metros. Mede em tempo de resposta.”
A ideia representa uma mudança importante na percepção da gestão.
A presença física deixa de ser o único indicador de bom atendimento, enquanto velocidade, qualidade da resposta e eficiência operacional ganham protagonismo.
Rodrigo Lobo também destacou a diferença entre uma inteligência artificial utilizada individualmente e uma IA institucional.
Quando cada colaborador utiliza ferramentas isoladas, existe risco de falta de padrão, perda de conhecimento e problemas relacionados à governança.
Já uma IA integrada à empresa permite:
- padronização de processos;
- memória organizacional;
- controle de qualidade;
- segurança da informação;
- escala operacional.
A conclusão do painel resumiu o novo momento:
A tecnologia não substitui o relacionamento humano. Ela permite que esse relacionamento alcance mais pessoas.
Comunidades planejadas e empreendimentos multiuso exigem nova governança
O ENACON 2026 também ampliou o debate para além dos condomínios tradicionais.
No painel “Além do Muro”, Eduardo Zangari e Marcus Vinícius Borges discutiram os desafios jurídicos e administrativos das comunidades planejadas e empreendimentos multiuso.
Esses novos modelos imobiliários reúnem diferentes estruturas em um mesmo ambiente: residências, áreas comerciais, serviços, lazer e espaços compartilhados.
Com isso, surge uma necessidade maior de integração entre documentos, contratos, regras e modelos de gestão.
Uma das frases apresentadas durante o painel resumiu o desafio:
“O papel aceita tudo. O Judiciário não.”
A reflexão destacou que projetos complexos precisam nascer com uma estrutura jurídica sólida, evitando conflitos futuros.
A governança desses empreendimentos depende da conexão entre diversos instrumentos, como:
- contratos de cessão e administração de áreas;
- memoriais de parcelamento do solo;
- estatutos associativos;
- contratos de locação;
- normas gerais de convivência;
- documentos de compra e venda;
- documentos de incorporação imobiliária.
Segundo os especialistas, quatro pilares sustentam a gestão dessas comunidades:
- Governança;
- Conhecimento do cliente;
- Operação profissional;
- Convivência.
O debate mostrou que o futuro imobiliário será cada vez menos baseado apenas em edifícios isolados e mais conectado a ecossistemas urbanos integrados.
Novos negócios imobiliários acompanham mudanças das gerações
Outro painel estratégico do evento analisou como as novas gerações estão transformando o mercado imobiliário.
Em “Novos Negócios: Como Despertar o Desejo de Ali Estar”, Stephany Matsuda, Alexandre Bicudo e Victor Hirata discutiram as mudanças no comportamento dos consumidores e os impactos para incorporadoras, investidores e gestores.
A análise mostrou que cada geração possui expectativas diferentes sobre moradia.
A Geração Z valoriza:
- conectividade;
- tecnologia integrada;
- localização próxima de serviços;
- experiências digitais;
- flexibilidade.
Os millennials buscam:
- imóveis compactos;
- funcionalidade;
- sustentabilidade;
- boa localização;
- equilíbrio entre desejo de compra e realidade financeira.
Já os baby boomers apresentam maior foco em:
- segurança patrimonial;
- renda através de locação;
- sucessão familiar;
- investimentos de longo prazo.
Apesar das diferenças, algumas tendências aproximam todos os públicos:
- imóveis menores e mais inteligentes;
- infraestrutura completa;
- coworking;
- lazer integrado;
- digitalização da jornada de compra;
- bairros com serviços e mobilidade.
O painel destacou uma mudança cultural importante:
O consumidor está trocando cada vez mais a lógica de possuir pela lógica de utilizar.
Serviços, experiência e conveniência passam a ter papel decisivo na escolha de onde morar.
Mobilidade elétrica transforma infraestrutura dos condomínios
A evolução tecnológica também apareceu na discussão sobre veículos elétricos.
Especialistas destacaram que a instalação de carregadores em condomínios deve ser tratada como uma solução de infraestrutura completa.
Não basta instalar equipamentos.
É necessário considerar:
- capacidade elétrica;
- segurança;
- individualização do consumo;
- gerenciamento;
- manutenção.
A mobilidade elétrica representa uma tendência que deverá crescer nos próximos anos e exigirá planejamento dos empreendimentos.
Sustentabilidade deixa de ser tendência e vira responsabilidade
O segundo dia do ENACON 2026 também trouxe a sustentabilidade para o centro das discussões.
O painel “Sustentabilidade — O lixo nosso de cada dia” marcou o lançamento do Manual de Resíduos Sólidos do Secovi-SP.
Participaram do debate especialistas que destacaram o papel estratégico dos condomínios na transformação ambiental das cidades.
O crescimento urbano e a concentração de moradores em condomínios tornam esses empreendimentos fundamentais para ações como:
- separação correta de resíduos;
- reciclagem;
- logística reversa;
- redução de desperdícios;
- educação ambiental.
A mensagem foi clara:
Instalar lixeiras não resolve o problema.
A mudança depende de informação, organização e comportamento coletivo.
O futuro da gestão condominial já começou
Ao encerrar o ENACON 2026, ficou evidente que o setor condominial está entrando em uma fase de profundas mudanças.
O evento mostrou que o condomínio do futuro será mais tecnológico, sustentável, conectado e profissional.
Mas também revelou que nenhuma inovação terá sucesso sem considerar pessoas, convivência e relacionamento.
A Inteligência Artificial poderá ampliar a produtividade.
A legislação continuará exigindo atenção.
A sustentabilidade exigirá participação ativa.
As novas gerações transformarão a forma de morar.
E os gestores precisarão desenvolver novas habilidades para acompanhar esse cenário.
Entre todas as mensagens apresentadas ao longo dos dois dias, uma síntese se destacou:
A gestão condominial do futuro será construída pela união entre tecnologia, conhecimento, estratégia e humanidade.
O ENACON 2026 mostrou que essa transformação não está chegando.
Ela já começou.


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