Incêndio em carregador de veículo elétrico instalado de forma irregular assusta moradores de condomínio em Maceió
Fiação subdimensionada e falhas no sistema de proteção são as principais suspeitas; caso reacende debate sobre responsabilidade técnica e segurança nas instalações para recarga em condomínios.
Foto: Reprodução Um incêndio provocado por um carregador de veículo elétrico instalado fora dos padrões técnicos e normativos foi registrado em um condomínio residencial em Maceió (AL), nesta semana. O episódio reforça o alerta que especialistas e órgãos técnicos vêm fazendo há anos: o risco não está no veículo elétrico, mas nas instalações realizadas de forma irregular e sem acompanhamento profissional.
O tema segue em alta no Brasil e, infelizmente, episódios de irresponsabilidade técnica continuam alimentando a disseminação de informações equivocadas sobre a segurança dos carros elétricos em condomínios. Após o recente caso em que um usuário utilizou extensão residencial comum para alimentar um carregador portátil, deixando-o sobre o banco do veículo e provocando um princípio de incêndio na via pública, um novo episódio agora chama atenção no ambiente condominial — desta vez, dentro de uma garagem.
O que aconteceu na garagem
De acordo com as primeiras informações, o incêndio teve início em um carregador instalado de maneira inadequada, com fortes indícios de subdimensionamento da fiação elétrica, o que levou ao aquecimento excessivo dos condutores, resultando na queima do cabo e do equipamento. Também há suspeitas de falhas ou inexistência de um quadro de proteção elétrica adequado, com dispositivos de segurança compatíveis com a carga do sistema.
Uma moradora, ao sentir cheiro de fumaça na garagem, iniciou uma gravação para identificar a origem do problema. Nas imagens, é possível ver a fumaça se intensificando até que ela percebe as chamas entre dois veículos.
“Um cheiro de queimado. Dá para ver fumaça. Meu Deus, tá pegando fogo, tá pegando fogo”, diz a moradora no vídeo, antes de sair correndo para pedir ajuda.
O fogo foi rapidamente controlado pela equipe de ronda do condomínio, e a administração aguarda a apuração técnica dos órgãos competentes para a completa elucidação das causas do incidente.
No final da gravação, o carregador aparece completamente destruído, assim como o cabo de alimentação. Felizmente, o incêndio foi contido antes que atingisse os veículos vizinhos, e não houve registro de vítimas nem de grandes danos estruturais.
Risco real
O vídeo levanta uma questão preocupante: se a moradora não tivesse percebido o incêndio naquele exato momento, que proporção o fogo poderia tomar? Em um ambiente fechado, como uma garagem de condomínio, a propagação das chamas entre veículos é rápida, elevando drasticamente o risco de um incêndio de grandes proporções, com ameaça direta à vida dos moradores – além do risco estrutural.
Outro ponto observado é a aparente ausência de sistema de sprinklers (chuveiros automáticos) na área onde ocorreu o incidente. O uso desse tipo de sistema já é exigido em alguns estados brasileiros para a instalação de pontos de recarga de veículos elétricos. Também é exigido a presença de sistema de detecção e alarme de incêndio em garagens, o que, neste caso, poderia ter antecipado o alerta, facilitado a evacuação e agilizado o combate inicial às chamas até a chegada do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas.
Falhas graves de sinalização e equipamentos de combate ao incêndio
Outro ponto crítico observado no vídeo diz respeito à sinalização e aos equipamentos de segurança contra incêndio. Durante a gravação, é possível perceber claramente uma placa indicativa de extintor de incêndio posicionada acima de um carrinho de compras, porém, não há extintor instalado no local sinalizado. A ausência do equipamento em um ponto que deveria estar protegido representa falha gravíssima na segurança da edificação.
Também chama atenção o fato de que a vaga onde se encontrava o veículo elétrico não possuía qualquer tipo de sinalização específica, indicando a presença de ponto de recarga ou de veículo elétrico estacionado. A sinalização é fundamental tanto para a análise prévia de riscos, quanto para o trabalho das equipes de combate a incêndio, que precisam identificar rapidamente o tipo de tecnologia envolvida para adotar os procedimentos corretos de contenção.
A ausência dessas sinalizações compromete diretamente a resposta emergencial e aumenta o tempo de reação em uma ocorrência real.
Garagem semienterrada amplia o risco e a toxicidade do incêndio
Outro aspecto técnico relevante é que o vídeo indica que a garagem do condomínio é fechada em grande parte, com características de ambiente semienterrado ou em subsolo. Esse fator eleva significativamente o grau de risco em situações de incêndio, especialmente quando envolvem sistemas elétricos e baterias de íons de lítio.
Em locais fechados, a propagação do calor é mais rápida, há maior concentração de fumaça e, principalmente, ocorre o acúmulo de gases extremamente tóxicos, liberados durante a queima de componentes elétricos e das baterias. Esses gases podem causar asfixia, intoxicação severa e perda de consciência em poucos minutos, mesmo antes da propagação total das chamas.
Além disso, em garagens de subsolo, a ventilação costuma ser limitada, o que dificulta o resfriamento do ambiente e o controle do incêndio, exigindo protocolos específicos do Corpo de Bombeiros para esse tipo de ocorrência.
O problema não é o carro, nem o carregador
Especialistas afirmam que o risco não está no veículo elétrico nem no carregador homologado, ambos equipados com múltiplos sistemas de segurança, monitoramento térmico e proteção contra sobrecarga. O verdadeiro perigo está na instalação irregular, feita:
sem projeto elétrico;
- sem dimensionamento correto da fiação;
- sem dispositivos adequados de proteção;
- sem laudo de viabilidade técnica;
- sem acompanhamento de profissional habilitado, com registro junto ao Crea;
- e sem emissão de ART (anotação de responsabilidade técnica).
Em situações assim, o sistema opera fora dos limites de segurança, transformando o ponto de recarga em um potencial foco de incêndio.
Entendimento jurídico e responsabilidade do condomínio
Para o advogado Dr. Francisco Vasco, presidente da Comissão de Direito Condominial da OAB/AL, casos como este evidenciam que os condomínios precisam de orientação técnica de engenharia e também de acompanhamento jurídico permanentes, como forma de prevenir riscos, responsabilidades e litígios decorrentes de falhas estruturais e operacionais.
“Apesar de ainda não haver informações oficiais sobre o que exatamente ocorreu, situações como essa sempre servem de alerta. Toda instalação de ponto de recarga em condomínio exige muito mais do que boa vontade do morador: exige responsabilidade técnica. O condômino interessado precisa buscar um engenheiro habilitado, com emissão da respectiva ART, para apresentar um projeto viável, dimensionado corretamente e que não ofereça riscos à coletividade.
Do ponto de vista jurídico, o síndico também tem um papel fundamental, uma vez que ele não pode simplesmente autorizar ou tolerar essas instalações sem analisar minimamente a documentação técnica apresentada. Se houver falha, omissão ou negligência, o síndico pode responder civilmente e, em casos mais graves, até criminalmente. Por isso, é essencial que o condomínio siga as normas técnicas brasileiras, as regras internas e conte com profissionais qualificados para orientar todo o processo.”, destaca Dr. Vasco.
Segundo ele, síndicos que permitem ou deixam de fiscalizar instalações irregulares também podem ser responsabilizados por omissão, caso haja danos ou vítimas.
Alerta técnico dos engenheiros
O engenheiro civil especializado na área condominial, Henrique Crespo, reforça que a contratação de prestadores de serviços qualificados e legalmente habilitados é indispensável nesse tipo de intervenção.
“Com altas nas vendas dos carros elétricos, a procura pela instalação dos carregadores elétricos também está em alta. Entretanto deve-se ter total cuidado na contratação do profissional pois todos os detalhes técnicos dos manuais das montadoras devem ser seguidos 100% para evitar acidentes.
Sempre busque um profissional qualificado, treinado, com registro no Crea, estudo de viabilidade das instalações atuais do prédio tais como subestação, projeto de viabilidade técnica entre outros parâmetros básicos para a segurança. Assim, o risco de sobrecarga ou qualquer outro problema (incêndio) durante o uso será mitigado. Nem sempre o mais barato será o mais seguro!”, orienta o Eng. Crespo.
Crea de Alagoas se manifesta sobre este caso
O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Alagoas (Crea-AL) informou que uma equipe de fiscalização esteve no Condomínio Riviera Del Mare, no bairro de Cruz das Almas, em Maceió, para apurar as circunstâncias do incêndio ocorrido em uma estação de recarga para veículo elétrico no subsolo do edifício, após a repercussão de um vídeo nas redes sociais. Segundo o órgão, apesar de existir a ART referente à instalação do carregador que pegou fogo, não foi localizada a ART do projeto elétrico específico do ponto de recarga.
Também foi constatado que o responsável técnico era um engenheiro civil, quando a recomendação técnica é que esse tipo de serviço seja projetado e executado por profissional da modalidade eletricista.
O equipamento foi recolhido pelo Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas para análise, e as estações de recarga do subsolo foram interditadas preventivamente até a conclusão do laudo técnico.
Manual de recarga segura
Diante do crescimento da frota de veículos elétricos e dos riscos associados a instalações mal executadas, o Crea/AL, a Equatorial Energia e o Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas lançaram o “Manual da Recarga Segura – Guia rápido para instalação de estações de recarga para veículos elétricos”, com orientações técnicas e de segurança para condomínios, profissionais e usuários.
O material está disponível para consulta pública e tem como objetivo padronizar, orientar e prevenir acidentes como o ocorrido em Maceió. Clique aqui para baixar.
Segurança predial exige responsabilidade permanente
O episódio reforça uma das premissas básicas da engenharia e da gestão condominial: sistemas prediais não admitem improvisos. Elevadores, fachadas, sistemas hidráulicos, redes de gás e instalações elétricas — incluindo, agora, os sistemas de recarga de veículos elétricos — devem ser tratados com absoluto rigor técnico, legal e normativo.
Cabe aos síndicos, administradoras e moradores prezar pela legalidade, pela segurança coletiva e pela contratação de profissionais habilitados, evitando que a modernização venha acompanhada de riscos desnecessários.
O avanço da mobilidade elétrica é irreversível. O que não pode avançar é a improvisação técnica dentro dos condomínios.





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