Prédio histórico de Recife onde se passa “O Agente Secreto” ganha sessão em meio a disputa imobiliária
Edifício Ofir, locação do filme estrelado por Wagner Moura, teve exibição especial para moradores em esforço comunitário para valorizar sua preservação no contexto de litigância imobiliária
O histórico Edifício Ofir, localizado no bairro do Espinheiro, na zona norte do Recife, voltou a ganhar destaque cultural e urbano ao sediar uma sessão especial do filme “O Agente Secreto”, longa brasileiro com forte repercussão internacional, em meio a uma disputa imobiliária que já dura mais de duas décadas envolvendo moradores e herdeiros do imóvel.
O evento, ocorrido na noite de segunda-feira (26), reuniu não apenas moradores, amigos e equipe de produção, mas também demonstrou a articulação comunitária em torno da conservação do edifício, que se tornou referência cultural e ponto turístico em função de sua inserção na narrativa cinematográfica.
Cinema, história e comunidade
Construído nos anos de 1950, o Edifício Ofir preserva grande parte de suas características originais de época, o que o tornou atração estética e narrativa para o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura — produção nacional de destaque que vem colecionando indicações e prêmios internacionais.
No longa, o prédio é apresentado como moradia temporária dos personagens durante a trama ambientada em Recife, conferindo à edificação um papel quase protagônico, enquanto remete à memória cultural e social da cidade.
Durante a exibição, o clima festivo marcou o encontro, com frevo, abraços entre moradores e crianças circulando entre as cadeiras distribuídas no quintal, o que simbolizou a estreita relação entre a produção audiovisual e a comunidade local.
Disputa imobiliária antiga mobiliza moradores
A sessão especial ocorreu em um contexto de longos embates jurídicos. Há quase 22 anos, o Ofir é objeto de uma disputa que envolve moradores e herdeiros do imóvel, em cenário que também atrai o interesse de incorporadoras imobiliárias, que tentaram adquirir unidades no local, pressionando sua preservação e uso original.
A ação comunitária ganhou maior visibilidade recentemente, com a exibição do filme reforçando o valor histórico e afetivo do edifício, ao mesmo tempo em que envolve discussões sobre uso imobiliário, especulação e preservação do patrimônio urbano no Recife.
Narrativas pessoais e memória cultural
Antes da sessão, moradores e ex-residentes participaram de atividades que revelaram parte da história do Ofir. A promotora de Justiça Helena Martins, antiga moradora por mais de 30 anos e proprietária de unidades no prédio, exibiu imagens históricas da edificação e relatou momentos marcantes, como celebrações familiares que ali ocorreram.
Ela anunciou ainda medidas de restauração, incluindo a reconstrução de elementos originais, como muros com cobogós, que permitirão a visualização da edificação de quem passa pela rua — gesto simbólico de preservação da memória arquitetônica e urbana.
Cinema como instrumento de preservação
O diretor Kleber Mendonça Filho explicou que a escolha do Ofir como locação cinematográfica se deu após uma visita prévia ao imóvel, antes mesmo da escrita do roteiro, enfatizando que os espaços urbanos que inspiram suas obras são frequentemente tão relevantes quanto os próprios personagens.
“A utilização de espaços como este não existe mais com frequência hoje. O prédio é um personagem importante, escondido à vista de todos — um segredo bem guardado”, disse o cineasta, destacando o valor simbólico da edificação.
Relevância cultural além das telas
Além da exibição especial no Ofir, o filme “O Agente Secreto” tem ganhado destaque em diversos circuitos e festivais. Ele tem sido apresentado em mostras nacionais e conquistado premiações, reforçando a projeção internacional do cinema brasileiro e sua capacidade de contar histórias ligadas à memória e identidade cultural do país.
A iniciativa de exibir a obra no próprio local onde parte de sua narrativa foi filmada representa uma convergência rara entre arte, comunidade e debate urbano, especialmente em um momento em que a preservação do patrimônio arquitetônico entra em choque com interesses imobiliários.


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