Marcondes Bernardo
Destituição de síndicos expõe crise de gestão e desafios da governança condominial
Crescimento dos afastamentos revela problemas de comunicação, profissionalização e relacionamento entre gestão e coletividade nos condomínios
Destituição de Síndicos: quando o condomínio perde no conflito entre gestão e coletividade
A destituição de síndicos deixou de ser um evento raro dentro dos condomínios brasileiros. O que antes era tratado como uma medida extrema, hoje passou a integrar a rotina de muitos empreendimentos, especialmente em condomínios de médio e grande porte.
A legislação brasileira permite a destituição do síndico e estabelece mecanismos relativamente acessíveis para sua convocação. O artigo 1.349 do Código Civil prevê que a assembleia, especialmente convocada para esse fim, poderá destituir o síndico que praticar irregularidades, não prestar contas ou não administrar convenientemente o condomínio.
Além disso, o artigo 1.355 do próprio Código Civil possibilita que 1/4 dos condôminos convoquem assembleia extraordinária, caso o síndico não o faça. Na prática, isso tornou o processo de destituição cada vez mais frequente dentro da realidade condominial brasileira.
Mas a pergunta que merece reflexão é: por que tantas destituições vêm acontecendo?
A crise da gestão condominial
Grande parte das destituições atuais não nasce, necessariamente, de grandes escândalos. Em muitos casos, o desgaste começa silenciosamente, através da ausência de diálogo, da falta de transparência e da incapacidade de gestão coletiva.
O condomínio moderno exige muito mais do que conhecimento básico administrativo. Hoje, o síndico precisa compreender gestão financeira, manutenção predial, legislação, mediação de conflitos, compliance, segurança, comunicação institucional e gestão de pessoas.
Entretanto, muitos empreendimentos ainda convivem com gestores sem preparo técnico adequado, especialmente síndicos profissionais que ingressam no mercado sem experiência prática em condomínios complexos.
Outro fator recorrente é a falta de comunicação com a coletividade. O silêncio administrativo gera insegurança. E onde não existe comunicação clara, rapidamente surgem desconfianças, conflitos políticos internos e movimentos de oposição.
Em diversos condomínios, a gestão passa a ser disputada como espaço de poder, e não como atividade técnica de administração patrimonial. Isso transforma o ambiente condominial em um cenário de disputas pessoais, grupos internos e interesses paralelos.
Quando a destituição se torna inevitável
Naturalmente, existem situações em que a destituição é necessária e legítima.
A legislação é clara ao permitir o afastamento do síndico diante de irregularidades, omissão na prestação de contas ou administração incompatível com os interesses do condomínio.
Os casos mais graves envolvem:
desvio de recursos;
fraudes financeiras;
ausência de prestação de contas;
contratação irregular de fornecedores;
descumprimento da convenção;
violação da legislação;
gestão temerária;
favorecimentos internos;
omissões que coloquem em risco a coletividade.
Nessas hipóteses, a destituição deixa de ser apenas uma possibilidade política e passa a ser uma medida de proteção patrimonial e institucional do condomínio.
O problema da subjetividade
Existe, porém, um ponto extremamente delicado na legislação: a expressão “não administrar convenientemente o condomínio”.
Trata-se de um conceito subjetivo e aberto à interpretação da coletividade. Em muitos casos, isso permite que questões políticas, desgastes pessoais ou insatisfações pontuais acabem motivando processos de destituição.
O próprio Superior Tribunal de Justiça já consolidou entendimento relevante sobre o tema ao reconhecer que a destituição pode ocorrer pela maioria absoluta dos presentes na assembleia regularmente convocada, interpretação que ampliou significativamente a viabilidade prática dessas decisões dentro dos condomínios.
Na prática, isso significa que síndicos podem ser afastados não apenas por ilegalidades graves, mas também por perda de apoio político e desgaste da relação com os moradores.
O desgaste coletivo
Pouco se fala sobre os danos internos causados por um processo de destituição.
A assembleia de afastamento costuma dividir o condomínio, gerar conflitos entre moradores, desvalorizar o ambiente institucional e comprometer a estabilidade da gestão.
De um lado, existe uma coletividade muitas vezes ansiosa, que poderia buscar inicialmente o diálogo, a cobrança formal e mecanismos de mediação antes de partir diretamente para uma destituição.
Do outro lado, também existe o síndico que percebe claramente a perda de confiança da comunidade, mas escolhe ignorar os sinais de desgaste, adotando postura defensiva e confrontativa, ao invés de construir soluções coletivas.
O resultado quase sempre é o mesmo: desgaste emocional, conflitos jurídicos, judicialização e ruptura da harmonia condominial.
E, em muitos casos, quem mais perde é o próprio condomínio.
A profissionalização deixou de ser opcional
O crescimento das destituições revela um problema estrutural do mercado condominial brasileiro: a ausência de profissionalização efetiva.
Condomínios movimentam milhões de reais por ano, administram equipes, contratos, obras, passivos trabalhistas, riscos jurídicos e patrimônio coletivo. Ainda assim, muitos gestores assumem essa responsabilidade sem qualquer formação técnica adequada.
Síndicos despreparados, sem experiência prática e com deficiência de comunicação continuam sendo uma das principais causas de instabilidade condominial.
A gestão moderna exige preparo técnico, inteligência emocional, transparência administrativa e capacidade de diálogo permanente com a coletividade.
Hoje, administrar condomínio deixou de ser apenas uma função operacional. Tornou-se uma atividade de alta responsabilidade institucional, jurídica e financeira.
Reflexão final
A destituição não deve ser banalizada, mas também não pode ser ignorada quando necessária.
O equilíbrio está justamente na maturidade da coletividade e na responsabilidade da gestão.
Condomínios saudáveis não são aqueles sem conflitos, mas aqueles que conseguem resolver divergências com transparência, técnica, diálogo e responsabilidade institucional.
Porque, ao final, uma gestão ruim prejudica o condomínio.
Mas uma guerra interna permanente também.


SOBRE O AUTOR
Marcondes Bernardo | Gestão e Marketing
Sócio-gerente da Ability Serviços, com mais de 20 anos de experiência no setor condominial. Pós-graduado em Gestão de Pessoas e Gestão Financeira, é especialista em administração condominial, comunicação estratégica e marketing digital.
Criador do S10, considerado o maior programa de incentivo e reconhecimento para síndicos do Brasil, atua também como professor do Sindicalize, contribuindo para a formação e capacitação de gestores condominiais em todo o país.
Especialista em comunicação aplicada ao ambiente condominial, é apresentador do Ability Cast, podcast voltado aos setores condominial e imobiliário, onde debate tendências, governança, gestão, inovação e boas práticas do mercado.
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