Polícia investiga esquema de pirâmide financeira de R$ 200 milhões ligado a incorporadora imobiliária em São Paulo
Empreendimentos da Neoin, que prometiam imóveis e lucros mensais de até 2%, estão paralisados; mais de 1.200 pessoas foram prejudicadas. Justiça bloqueou bens e quebrou sigilos dos investigados.
Foto: Reprodução Polícia de São Paulo investiga pirâmide financeira de R$ 200 milhões envolvendo empreendimentos imobiliários inacabados
Empreendimentos da incorporadora Neoin, que prometiam lucros e imóveis como garantia, estão paralisados; Justiça bloqueia bens e quebra sigilo bancário dos investigados
A paisagem de obras paradas e prédios inacabados em São Paulo esconde um drama vivido por centenas de famílias. A Polícia Civil investiga uma suposta pirâmide financeira que teria movimentado cerca de R$ 200 milhões, envolvendo a incorporadora Neoin, empresa que prometia imóveis e rendimentos mensais a investidores.
De acordo com as investigações, mais de 1.200 pessoas foram prejudicadas após investirem valores significativos em empreendimentos que nunca saíram do papel. A empresa, comandada pelo empresário Daniel Bernal, teria utilizado o setor imobiliário como fachada para atrair investidores com promessas de retornos muito acima da média do mercado.
O sonho da casa própria que virou pesadelo
A Neoin se apresentava como uma incorporadora moderna, responsável por lançar oito empreendimentos — seis deles na Zona Leste da capital paulista. Em campanhas de marketing, vídeos institucionais e palestras, a empresa prometia “moradias que fariam a diferença na vida das pessoas”, com fachadas arrojadas, elevadores panorâmicos e arquitetura contemporânea.
O modelo de investimento proposto era duplo: além da compra de apartamentos na planta, a empresa oferecia uma aplicação financeira que pagaria 2% ao mês sobre o valor investido — o equivalente a R$ 2 mil mensais para quem aplicasse R$ 100 mil. Caso o negócio não desse certo, os investidores receberiam um imóvel como garantia.
Nos primeiros meses, os pagamentos ocorreram regularmente, o que aumentou a confiança dos clientes e levou muitos deles a investir ainda mais. Segundo a polícia, houve casos de pessoas que venderam carros e casas para aplicar na Neoin.
Mas o sonho virou frustração: os rendimentos cessaram, as obras pararam e o patrimônio desapareceu. O Fantástico ouviu vítimas que perderam economias inteiras. Uma das investidoras relatou que aplicou R$ 60 mil com o objetivo de sair do aluguel e oferecer estabilidade à família. Outra contou ter investido R$ 410 mil, acreditando na promessa de valorização dos imóveis.
Marketing agressivo e promessas sedutoras
A Neoin apostava pesado em marketing digital para atrair investidores. As redes sociais da empresa exibiam vídeos motivacionais, festas com champanhe e discursos sobre “propósito e transformação de vidas”. Em eventos, Daniel Bernal aparecia como líder visionário e inspirador.
No entanto, quando os pagamentos começaram a atrasar, as justificativas variavam: “má gestão”, “dificuldades de mercado” e “problemas momentâneos de fluxo de caixa”. O cenário, porém, era outro — obras abandonadas, terrenos vazios e empreendimentos embargados.
Denúncias, áudios e investigações
As primeiras denúncias surgiram nas redes sociais, seguidas por uma enxurrada de processos judiciais. Em áudios obtidos pelo Fantástico, Daniel Bernal responde de forma agressiva a clientes que cobravam explicações. Em uma das gravações, ele afirma:
“Se você ficar nessa de querer me ameaçar, vai ficar por último na fila. Nós temos patrimônio pra pagar, só precisa ter paciência.”
Ex-funcionários também denunciaram a empresa, alegando que foram pressionados a continuar vendendo mesmo após perceberem que os empreendimentos não existiam.
Segundo a Polícia Civil de São Paulo, a operação denominada “Prédios de Areia” apura crimes de pirâmide financeira, estelionato, lavagem de dinheiro, associação criminosa e crime contra a economia popular. Investigações apontam o uso de contas bancárias de familiares para movimentar recursos e ocultar valores obtidos ilegalmente.
Defesa e recuperação judicial
A defesa de Daniel Bernal nega a prática de fraudes e alega que os problemas da empresa decorreram apenas de má gestão administrativa. Os advogados afirmam que o dinheiro dos investidores estaria aplicado em imóveis, terrenos e construções inacabadas, e garantem que “a dívida será paga dentro do processo de recuperação judicial”.
Em setembro, a Justiça determinou o bloqueio de bens e a quebra de sigilo bancário de Daniel Bernal e dos demais sócios da Neoin. No mesmo dia, os representantes legais da empresa protocolaram um pedido de recuperação judicial, tentando suspender temporariamente as cobranças e reorganizar as dívidas.
Cenário de abandono e incerteza
Dois empreendimentos da Neoin chegaram à fase de acabamento, mas nunca foram entregues. As construções, localizadas em bairros da Zona Leste, estão paradas há pelo menos dois anos, segundo vizinhos e compradores. No local, há marcas de infiltração, restos de tinta e até pessoas morando de forma improvisada.
Enquanto o processo judicial avança, os investidores aguardam respostas. O advogado de defesa insiste que “há patrimônio suficiente para o ressarcimento”, mas não há prazos definidos para o pagamento.
Por enquanto, o que permanece visível na cidade são as carcaças de concreto e o sonho interrompido de quem acreditou em um projeto que prometia transformar vidas — e acabou em ruínas.



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