Publicidade

Condomínio contaminado por substâncias cancerígenas completa 25 anos sem solução em Campinas

Moradores convivem com área interditada, riscos ambientais e incertezas sobre descontaminação em residencial de Campinas

G1
Condomínio contaminado por substâncias cancerígenas completa 25 anos sem solução em Campinas Imagem aérea do local e gráfico com a extensão da contaminação — Foto: Reprodução/Cetesb

Um condomínio residencial localizado no bairro Mansões Santo Antônio, em Campinas (SP), está prestes a completar 25 anos convivendo com um dos casos mais emblemáticos de contaminação ambiental urbana do país. O Condomínio Parque Primavera teve as obras interditadas pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) em 25 de outubro de 2001, após a descoberta de substâncias cancerígenas no solo e no lençol freático da área.


O empreendimento foi projetado para ser um condomínio de padrão elevado, com ampla área de lazer, piscina, parque infantil e espaços de convivência. Um quadro pendurado no hall de entrada do Bloco A ainda mostra a imagem original do projeto idealizado para famílias de classe média alta em uma das regiões mais valorizadas de Campinas, próxima a universidades e centros comerciais.


Mas o cenário planejado nunca saiu completamente do papel.


Das oito torres previstas inicialmente, apenas três foram construídas e somente uma delas é habitada atualmente por cerca de 150 moradores. O restante do condomínio permanece interditado há quase 25 anos. A área de lazer nunca foi concluída e, devido às restrições ambientais, qualquer perfuração no solo é proibida.


Segundo a Cetesb, a contaminação envolve etanos e etenos clorados, compostos químicos cancerígenos encontrados no solo, na água subterrânea, no vapor do solo e até no ar ambiente. Essas substâncias evaporam com facilidade e oferecem riscos à saúde humana.


A origem do problema é atribuída à antiga indústria Proquima Produtos Químicos Ltda., que funcionou no local entre 1973 e 1996. A empresa atuava na recuperação de solventes e fabricação de produtos de limpeza.


De acordo com a Cetesb, há evidências de que resíduos químicos eram descartados em “poços sumidouros”, estruturas onde substâncias infiltravam diretamente no solo e atingiam as águas subterrâneas. Além disso, em abril de 1987, um incêndio na fábrica provocou derramamento de produtos químicos, agravando ainda mais a contaminação da área.


O problema ambiental ultrapassou os limites do terreno original e se espalhou por diversas quadras da região, alcançando inclusive áreas próximas a um córrego entre as ruas Clóvis Teixeira e José Luis de Camargo Moreira.


Os terrenos da antiga Proquima foram adquiridos em 1998 pela Concima S.A. Construções Civis, responsável pela construção do condomínio. As obras avançaram até serem interditadas em 2001 pela Cetesb.


Desde então, o caso passou a envolver Prefeitura de Campinas, Ministério Público de São Paulo, Cetesb, Justiça e moradores. Em 2008, foi firmado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) prevendo medidas de descontaminação e recuperação ambiental da área.


Uma das principais tentativas de remediação ocorreu em 2014, com a implantação de uma usina de extração de gases no subsolo de um dos blocos interditados. O sistema utilizava motores e tubulações para puxar gases contaminantes do centro da área afetada. Os compostos químicos eram filtrados em tanques com carvão ativado antes da liberação do ar para a atmosfera.


A Prefeitura de Campinas ficou responsável pela operação da usina até outubro de 2020, quando o sistema passou para responsabilidade do condomínio. Atualmente, porém, a estrutura está desativada há cerca de dois meses devido à queima de dois inversores elétricos.


Segundo o síndico Itamar Rabanera, de 75 anos, o condomínio não possui condições financeiras para manter sozinho a operação da usina e realizar as manutenções necessárias. Apenas a troca do carvão ativado utilizado na filtragem chega a custar cerca de R$ 80 mil.


“São 50 apartamentos, 50 proprietários que têm de manter tudo isso daqui limpo e têm de cuidar das duas torres, porque não podemos abandonar. Hoje, o condomínio mais caro que tem na região das Mansões Santo Antônio é o nosso, que pouco oferece para os moradores”, afirmou o síndico.

Apesar das torres interditadas permanecerem fechadas desde 2001, os prédios seguem estruturalmente preservados. Os apartamentos não apresentam sinais significativos de deterioração, vandalismo ou danos estruturais, com exceção da fiação elétrica furtada logo após o embargo das obras.


Mesmo assim, o condomínio convive diariamente com altos custos de manutenção, segurança privada e monitoramento das áreas interditadas. A taxa condominial gira em torno de R$ 1 mil mensais para os moradores da única torre habitada.


O advogado e morador Roberto Sundberg Guimarães Filho, de 61 anos, afirma que o problema pesa financeiramente para todos os residentes.


“Sempre pesou, né? Não tenho medo da contaminação porque eu moro aqui há mais de 20 anos e nunca vi caso de alguém que teve algum problema. Mas a questão de segurança preocupa a todos porque tem duas torres que têm de ficar sob vigia”, relatou.

A longa espera por uma solução definitiva também gera revolta entre proprietários das unidades interditadas. O analista de sistemas Ricardo Alves Fernandes, proprietário de um apartamento no Bloco C desde 1997, afirma já ter perdido as esperanças de morar no imóvel adquirido há quase três décadas.


“Minha filha tinha uns 10 anos quando eu dizia que isso demoraria até ela entrar na faculdade. Hoje ela já está no segundo ano da faculdade e até agora nada”, desabafou.

Fernandes também critica o fato de outros empreendimentos imobiliários terem sido liberados em áreas próximas ao condomínio contaminado.


“Os gases sabem que as pessoas não podem atravessar a rua? Porque aprovaram outros condomínios ao redor”, ironizou.

A situação ficou ainda mais complexa após a falência da Concima, decretada pela Justiça em abril de 2022. Parte dos proprietários conseguiu obter escritura dos imóveis por meio de acordos realizados antes da falência da empresa, o que pode gerar novas disputas judiciais em caso de leilão do condomínio para pagamento de credores da massa falida.


Enquanto isso, moradores seguem convivendo com insegurança jurídica, prejuízos financeiros e a incerteza sobre quando — ou se — o condomínio poderá finalmente ser liberado integralmente.

O caso do Parque Primavera se tornou símbolo das consequências ambientais, urbanísticas e jurídicas envolvendo empreendimentos construídos em áreas contaminadas e reacende o debate sobre fiscalização ambiental, responsabilidade das construtoras e proteção aos compradores de imóveis residenciais.




COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login