Laudo aponta fita isolante e falhas graves em elevadores de condomínio em João Pessoa
Perícia identificou ausência de freios, improvisos e irregularidades em equipamentos após acidente que deixou mulher paraplégica
Por Anderson Silva
18/05/2026 - 08h27
Fita isolante foi utilizada em corrediças de portas de um dos elevadores do condomínio onde mulher ficou paraplégica, em João Pessoa — Foto: Reprodução O laudo técnico produzido após o grave acidente envolvendo um elevador no condomínio Reserve Altiplano I, em João Pessoa, revelou uma série de falhas estruturais, improvisos e ausência de dispositivos essenciais de segurança nos equipamentos do residencial. O caso ganhou repercussão nacional após uma mulher ficar paraplégica e duas crianças se ferirem durante a queda da cabine no bairro Altiplano, na capital paraibana.
A perícia, anexada ao processo judicial que tramita na Justiça da Paraíba, apontou irregularidades consideradas graves sob o ponto de vista da engenharia e da segurança predial. Entre os problemas identificados estão ausência de freios de emergência, falhas em sistemas de proteção, improvisos com fita isolante em componentes das portas dos elevadores e deficiência nos mecanismos de travamento.
Segundo o documento técnico, os equipamentos apresentavam condições incompatíveis com os padrões mínimos exigidos pelas normas de segurança para elevadores residenciais. Os peritos destacaram que os problemas encontrados não se tratavam apenas de desgaste natural ou falhas pontuais de manutenção, mas de irregularidades capazes de comprometer diretamente o funcionamento seguro dos elevadores.
O laudo detalha que os elevadores possuíam falhas relevantes em componentes considerados fundamentais para a segurança operacional. “Os principais problemas identificados são a capacidade da máquina de tração, as características ou ausência do sistema de freio de segurança, circuitos de segurança inexistentes ou inoperantes, ausência de para-choques, além de oportunidades de melhorias e necessidade de intervenções que impactam no funcionamento diário e evitam futuras paralisações”, diz a conclusão do laudo.
Outro ponto que chamou atenção dos peritos foi a utilização de fita isolante em partes do sistema das portas dos elevadores, prática considerada inadequada para equipamentos dessa natureza. O documento aponta ainda ausência de dispositivos de segurança obrigatórios, falhas elétricas e deficiência em componentes fundamentais do funcionamento das cabines.
As conclusões técnicas reforçaram os questionamentos levantados anteriormente por moradores e pela administração condominial, que já relatavam problemas recorrentes nos elevadores antes mesmo do acidente. Registros de travamentos, falhas operacionais e interrupções no funcionamento dos equipamentos já haviam sido apontados em reclamações anteriores.
O acidente ocorreu quando a cabine despencou com três pessoas dentro. A principal vítima foi Sharon Karim, que sofreu uma grave lesão na coluna após o impacto. Segundo informações médicas divulgadas posteriormente, o trauma causou paraplegia imediata. As duas crianças que também estavam no elevador sofreram apenas escoriações leves e receberam atendimento médico.
Após a repercussão do caso, a Justiça da Paraíba determinou a substituição integral dos elevadores do condomínio. Na decisão, a juíza Shirley Abrantes, da 8ª Vara Cível de João Pessoa, afirmou que os problemas encontrados configuram “falhas graves de projeto e instalação”, atribuindo responsabilidade à construtora responsável pelo empreendimento.
A magistrada determinou que a empresa apresente um cronograma detalhado para execução das obras e conclua a troca dos equipamentos em até 90 dias, sob pena de multa diária em caso de descumprimento da decisão judicial.
Como medida preventiva, a Defesa Civil de João Pessoa interditou os elevadores do condomínio onde ocorreu o acidente e também equipamentos de um residencial vizinho construído pela mesma empresa. A interdição ocorreu após solicitação do CREA-PB, diante dos riscos apontados pelos laudos técnicos.
O episódio reacendeu o debate sobre manutenção preventiva, fiscalização técnica e responsabilidade civil em condomínios residenciais. Especialistas em engenharia alertam que elevadores exigem inspeções periódicas rigorosas, cumprimento das normas técnicas da ABNT e acompanhamento permanente de empresas especializadas.
Profissionais da área também destacam que síndicos, administradoras e construtoras possuem responsabilidades importantes na preservação da segurança dos equipamentos. A negligência em inspeções, reparos e substituição de peças pode transformar falhas operacionais em acidentes de grandes proporções.
Além da discussão técnica, o caso provocou forte repercussão entre moradores de condomínios em todo o país, ampliando o alerta sobre a necessidade de transparência na gestão predial, controle das manutenções e fiscalização constante de equipamentos essenciais à segurança dos moradores.
O acidente no Altiplano se tornou um dos casos mais graves envolvendo elevadores residenciais registrados recentemente no Brasil e segue sendo acompanhado por autoridades, órgãos técnicos e pelo setor condominial.


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