Pets no colo, visitantes barrados e vigilância: as polêmicas da “síndica brava” do Edifício JK
Maria das Graças comandou o tradicional condomínio de Belo Horizonte por quatro décadas e ficou conhecida por regras rígidas, fiscalização intensa e episódios que marcaram moradores
Imagem ilustrativa Durante décadas, morar no tradicional Edifício JK, em Belo Horizonte (MG), significou conviver com regras consideradas incomuns até mesmo para os padrões rígidos do universo condominial. Administrado por cerca de 40 anos por Maria das Graças Lima — conhecida nacionalmente como a “síndica brava” — o condomínio projetado por Oscar Niemeyer acumulou histórias curiosas, episódios polêmicos e relatos de fiscalização intensa envolvendo moradores, visitantes e até animais de estimação.

Maria das Graças faleceu em março de 2026, mas sua gestão continua sendo assunto entre antigos e atuais moradores do edifício, um dos mais conhecidos da capital mineira. Em entrevista à revista Casa e Jardim, uma moradora que preferiu não se identificar relatou detalhes do cotidiano no condomínio durante o período em que a ex-síndica esteve à frente da administração.
Segundo a moradora, uma das regras mais controversas envolvia a circulação de cães nas áreas comuns. Os pets só poderiam transitar no colo dos tutores, medida que gerava indignação principalmente entre moradores idosos ou donos de cães maiores.
“Uma senhora que tinha mais de 90 anos precisava carregar um cachorro gordinho no colo. Se fosse cachorro grande, então, pior ainda”, relatou.
As restrições iam além dos animais. O condomínio também exigia que moradores e visitantes utilizassem “roupas adequadas” para entrar na administração, proibindo acesso de pessoas usando bermuda ou chinelo.
Outra medida considerada excessiva envolvia o controle rigoroso de visitantes. Após as 22h, convidados só podiam entrar no prédio se o próprio morador descesse pessoalmente até a portaria para autorizar a entrada. Mesmo hóspedes de longa permanência precisavam ser liberados novamente após alguns dias.
“Se chegasse dez minutos depois do horário, a pessoa podia ficar presa do lado de fora esperando alguém descer”, contou a moradora.
O clima de vigilância constante também marcou a reputação da administração. Segundo relatos, conversas rápidas entre moradores e funcionários do condomínio eram monitoradas de perto. Havia ainda funcionários considerados “de confiança” da síndica, responsáveis por observar movimentações e comportamentos dentro do edifício.
“Parecia que tudo era monitorado”, afirmou.
Os jornais internos distribuídos aos moradores também ajudavam a fortalecer a imagem polêmica da gestão. As publicações traziam críticas indiretas a condôminos considerados problemáticos, mensagens direcionadas a moradores e até textos exaltando a própria síndica.
Entre os episódios mais comentados da administração esteve a tentativa de exigir que o pagamento da taxa condominial fosse realizado exclusivamente em dinheiro vivo. O caso ganhou repercussão nacional quando a moradora Danielly Rocha decidiu quitar um boleto de R$ 835,20 utilizando apenas moedas, gravando a situação em vídeo nas redes sociais.
Outra crítica recorrente entre moradores dizia respeito à concentração de procurações durante assembleias, mecanismo que, segundo relatos, ajudava Maria das Graças a manter sucessivas reeleições na administração do condomínio.
Apesar das polêmicas, o cenário do Edifício JK começou a mudar após a troca de gestão. Segundo reportagem do g1, o comando do condomínio passou para Manoel Gonçalves de Freitas Neto, vice de Maria das Graças, eleito síndico em setembro de 2025.
Moradores afirmam que áreas antes fechadas foram reabertas e novos espaços de convivência passaram a funcionar no edifício, incluindo feiras internas e mercadinhos. Elevadores também estariam passando por reformas.
Mesmo após a mudança administrativa, as histórias envolvendo a antiga síndica continuam circulando entre moradores como verdadeiras “lendas urbanas” do condomínio e chegaram até a inspirar o podcast “A Síndica”, do jornalista Chico Felitti, que narra episódios curiosos e bastidores da gestão no Edifício JK.



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