Prédio giratório no Brasil permite mudar a vista do apartamento por comando de voz
Empreendimento inovador utiliza tecnologia para movimentar apartamentos e promete transformar a experiência de morar em edifícios residenciais
Foto: Reprodução O Edifício Suíte Vollard, localizado no bairro Mossunguê, em Curitiba, nasceu com a proposta de revolucionar a arquitetura residencial mundial. Inaugurado em dezembro de 2004, o empreendimento chamou a atenção da imprensa nacional e internacional ao apresentar uma tecnologia inédita: apartamentos capazes de girar 360 graus de forma independente, permitindo que cada morador alterasse a vista de sua unidade por meio de um simples comando de voz.
O projeto foi idealizado pelo arquiteto Bruno de Franco e desenvolvido pela Moro Construções. A proposta era ousada. Cada um dos onze apartamentos de aproximadamente 120 metros quadrados foi construído sobre uma estrutura circular apoiada em um eixo central. Um sistema motorizado permitia que as unidades realizassem movimentos completos em torno do próprio eixo, oferecendo aos moradores a possibilidade de escolher a paisagem que desejavam contemplar a qualquer momento do dia.
A inovação transformou o edifício em um dos empreendimentos mais comentados do setor imobiliário brasileiro. O conceito prometia uma experiência inédita de moradia. Um residente poderia acordar observando o nascer do sol e, horas depois, reposicionar seu apartamento para apreciar o pôr do sol sem sair da sala de estar.
Na época do lançamento, cada unidade era comercializada por cerca de R$ 835 mil, valor considerado extremamente elevado para os padrões do mercado local naquele período. A justificativa estava na exclusividade do projeto. A construtora divulgava o empreendimento como o primeiro edifício residencial giratório do planeta com apartamentos independentes, atraindo visitantes, investidores e profissionais da arquitetura de diversos países.
O projeto contribuiu para reforçar a imagem de Curitiba como referência em urbanismo e inovação. A capital paranaense, já reconhecida internacionalmente por seu planejamento urbano, passou a ser associada também a uma das experiências arquitetônicas mais ousadas do início dos anos 2000.
Entretanto, a inovação que prometia transformar a forma de morar começou a apresentar desafios práticos ainda antes da consolidação do empreendimento no mercado.
Embora os apartamentos girassem, a estrutura principal do edifício permanecia fixa. Elevadores, escadas, tubulações hidráulicas, redes elétricas e sistemas de comunicação não acompanhavam o movimento das unidades. Para que tudo funcionasse corretamente, foram necessárias complexas conexões móveis capazes de suportar os constantes movimentos dos apartamentos.
Com o passar do tempo, a manutenção desses sistemas tornou-se cada vez mais cara e especializada. Quando surgiam falhas mecânicas, os apartamentos podiam ficar travados em determinadas posições até que técnicos especializados realizassem os reparos necessários.
Além dos desafios técnicos, começaram a surgir situações inesperadas relacionadas à convivência dos moradores. Como cada unidade podia girar de forma independente, as relações de privacidade variavam constantemente. Em determinados momentos, apartamentos ficavam diretamente voltados uns para os outros; em outros, estavam completamente afastados visualmente. A administração precisou lidar com questões inéditas relacionadas ao uso da tecnologia e ao convívio condominial.
Paralelamente aos desafios operacionais, a Moro Construções passou a enfrentar dificuldades financeiras. O desempenho comercial do empreendimento ficou abaixo das expectativas iniciais, dificultando a sustentabilidade econômica do projeto.
Com o acúmulo de dívidas ao longo dos anos, incluindo débitos tributários que ultrapassaram R$ 1 milhão em IPTU, o empreendimento acabou se tornando alvo de processos judiciais. Em fevereiro de 2022, os apartamentos foram levados a leilão judicial com lance mínimo de aproximadamente R$ 1,4 milhão por unidade.
Apesar da repercussão do caso, não houve interessados na aquisição dos imóveis durante o leilão, evidenciando as dificuldades enfrentadas pelo empreendimento e as incertezas relacionadas à sua operação e manutenção.
Atualmente, o Suíte Vollard permanece como um dos exemplos mais curiosos da arquitetura brasileira contemporânea. O edifício continua de pé e preserva sua estrutura original. Alguns dos sistemas de rotação ainda podem ser acionados, mas o empreendimento não alcançou o sucesso residencial imaginado por seus idealizadores.
O caso tornou-se objeto de estudo para arquitetos, engenheiros, urbanistas e especialistas do mercado imobiliário. Para muitos profissionais, a história do Suíte Vollard demonstra que a inovação tecnológica, por si só, não garante a viabilidade de um empreendimento. A tecnologia precisa estar alinhada às necessidades reais dos usuários, à sustentabilidade operacional e aos custos de manutenção ao longo dos anos.
Mais de duas décadas após sua inauguração, o prédio continua despertando curiosidade de quem passa pela região e observa sua estrutura incomum. O empreendimento que pretendia colocar Curitiba definitivamente no mapa da arquitetura mundial acabou se transformando em um símbolo das oportunidades e dos desafios que acompanham projetos extremamente inovadores.
A trajetória do Suíte Vollard permanece como um dos capítulos mais marcantes da engenharia e da construção civil brasileira, servindo de exemplo sobre como criatividade, tecnologia e mercado precisam caminhar juntos para que uma ideia revolucionária se transforme em um sucesso duradouro.



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