Criminosos cortam internet e impõem serviço clandestino em condomínios da Bahia
Facções criminosas dominam infraestrutura de conectividade e obrigam moradores de edifícios a contratar provedores ilegais sob ameaça
Foto: Reprodução Região Metropolitana de Salvador (BA) — Moradores de condomínios residenciais de alto padrão em municípios da Região Metropolitana de Salvador, como Camaçari e Lauro de Freitas, enfrentam um problema inédito e alarmante: a interrupção dos serviços de internet fornecidos por operadoras tradicionais, seguida da imposição de provedores clandestinos controlados por criminosos.
Segundo relatos de moradores à imprensa, o serviço convencional foi interrompido após o corte deliberado da fibra óptica por grupos criminosos, que passaram a impedir técnicos das empresas de telecomunicações de realizarem reparos ou novas instalações. Essa estratégia de domínio do serviço essencial visa coagir os usuários a contratarem conexões de provedores ilegais, com forte presença de facções atuando no entorno das áreas residenciais.
Uma moradora, que preferiu não se identificar, relatou preocupação com a falta de alternativas: “Eu não posso ter o livre-arbítrio de escolher a operadora, e meu receio é que, futuramente, eu não possa escolher mais nada”, disse, destacando o medo de ficar refém de um serviço imposto à força.
Impactos diretos na vida cotidiana
A falta de acesso está afetando diretamente a rotina das famílias: profissionais que trabalham em regime de home office e estudantes que dependem da internet para suas atividades acadêmicas vêm enfrentando prejuízos significativos. A dependência cada vez maior de conectividade torna a situação ainda mais crítica.
Especialistas em segurança pública e telecomunicações apontam que esse modelo de ação — que combina violência, intimidação e controle de infraestrutura — representa um avanço do crime organizado sobre serviços essenciais para a sociedade, transformando a conectividade em um novo vetor de extorsão e presença territorial.
Violência e falta de intervenção
A resistência das operadoras em atuar nessas áreas está atrelada a episódios anteriores de violência extrema contra trabalhadores, incluindo a morte de funcionários de uma provedora em Salvador no final de 2025, em uma investigação em andamento que apura caso de tentativa de extorsão e intimidação a técnicos que se recusaram a pagar “pedágio” para trabalhar na região.
Apesar das denúncias de moradores e registros de boletins de ocorrência junto ao Ministério Público, autoridades estaduais — incluindo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia — não se pronunciaram oficialmente sobre medidas de segurança ou protocolos para restabelecimento dos serviços interrompidos.
Implicações para gestão condominial
O episódio revela a vulnerabilidade não apenas da infraestrutura digital em áreas urbanas, mas também coloca em foco importantes questões para gestores de condomínios e síndicos: como garantir a continuidade de serviços essenciais, como internet de qualidade e segurança dos moradores, quando a própria infraestrutura está sob controle de grupos criminosos?
Especialistas em gestão condominial alertam que a situação exige diálogo com operadoras, articulação com autoridades públicas e fortalecimento de redes de segurança comunitária, bem como a revisão de cláusulas contratuais e protocolos internos para lidar com interrupções causadas por fatores externos e criminosos.
Desafio à ordem pública
A imposição de serviços clandestinos em áreas residenciais de alta renda é um sintoma do que analistas definem como expansão do controle territorial do crime organizado sobre cadeias de serviços essenciais no Brasil, um fenômeno que ultrapassa o campo do tráfico e impacta diretamente a vida cotidiana de cidadãos dentro dos seus próprios lares.
Enquanto as famílias lidam com as consequências imediatas da falta de conectividade, o caso na Bahia promete se tornar um marco de debates sobre infraestrutura, segurança pública e direitos dos moradores em condomínios sob ameaça.

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