Uso do FGTS no desenrola pressiona mercado imobiliário e acende alerta no setor
Possível redirecionamento de recursos para pagamento de dívidas pode impactar financiamento habitacional e geração de empregos
Imagem ilustrativa A possibilidade de utilização de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para pagamento de dívidas no programa Desenrola tem gerado preocupação no mercado imobiliário brasileiro. Representantes do setor alertam que a medida pode comprometer o financiamento habitacional e impactar diretamente a construção civil.
De acordo com estimativas da Associação Brasileira de Incorporadoras (Abrainc), a retirada de recursos do FGTS pode provocar uma redução significativa na atividade do setor. Projeções indicam que saques entre R$ 4,5 bilhões e R$ 8,2 bilhões podem resultar na perda de até 107 mil empregos diretos e indiretos, além de limitar o acesso à moradia para cerca de 46 mil famílias.
O impacto também pode atingir a economia de forma mais ampla. Segundo o setor, há risco de redução na arrecadação entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,4 bilhões, além de uma possível retração de até R$ 10,7 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB), evidenciando o efeito multiplicador da construção civil.
A preocupação se intensifica diante do papel estratégico do FGTS no financiamento imobiliário. Em 2025, o fundo respondeu por cerca de 43% dos novos financiamentos habitacionais no país, totalizando aproximadamente R$ 138 bilhões. No estoque total de crédito, representa 27% da carteira, sendo uma das principais fontes de recursos para aquisição da casa própria.
Embora o orçamento do FGTS para 2026 ainda mantenha a maior parte dos recursos direcionada à habitação — incluindo subsídios para famílias de baixa renda —, o redirecionamento parcial para quitação de dívidas reforça o debate sobre a sustentabilidade do modelo de financiamento imobiliário no Brasil.
Representantes da indústria da construção avaliam que o uso do fundo para consumo imediato pode aumentar a incerteza em um cenário já desafiador, marcado por juros elevados, custos crescentes e mudanças econômicas estruturais.
Além disso, o mercado financeiro já demonstra sinais de reação negativa à possibilidade de mudanças no uso do FGTS, com queda nas ações de empresas do setor imobiliário e aumento da cautela por parte de investidores.
Especialistas destacam que, embora o programa Desenrola tenha potencial para aliviar o endividamento das famílias, o uso do FGTS pode fragilizar o sistema de financiamento habitacional, reduzindo a capacidade de concessão de crédito e afetando diretamente o acesso à moradia.
O cenário reforça a necessidade de equilíbrio entre políticas de estímulo ao consumo e a preservação de recursos estruturais que sustentam setores estratégicos da economia, como o imobiliário.
Para o segmento condominial, os possíveis impactos incluem desaceleração de novos lançamentos, redução da oferta de unidades e reflexos na cadeia de serviços vinculados à construção e gestão de empreendimentos.


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