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Documentário transforma Copan em retrato do Brasil polarizado e da convivência em condomínio

Filme acompanha eleições internas do edifício e expõe tensões políticas, sociais e urbanas dentro do maior condomínio residencial da América Latina

G1
Documentário transforma Copan em retrato do Brasil polarizado e da convivência em condomínio Foto: Reprodução

“Como é morar no Copan?”. Foi a partir dessa pergunta, repetida inúmeras vezes ao longo dos anos, que nasceu o documentário “Copan”, da diretora Carine Wallauer, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (28). O longa transforma o edifício mais emblemático do Centro de São Paulo em um retrato das tensões políticas, sociais e afetivas do Brasil contemporâneo.


Natural de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, Carine se mudou para São Paulo sem conhecer profundamente a história do edifício projetado por Oscar Niemeyer. A relação com o prédio foi construída aos poucos, enquanto viveu durante sete anos em um apartamento alugado no Copan — cinco deles dedicados à produção do documentário.


“Eu vim de uma família sem formação ligada à arquitetura. Não sabia nada sobre o Copan. Quando vi o prédio pela primeira vez, há uns dez anos, fui descobrindo tudo vivendo ali”, afirmou a diretora ao g1.

O resultado dessa experiência é um filme que busca justamente responder à curiosidade mais frequente de quem conhece o prédio: como é viver dentro de um dos condomínios mais famosos e complexos do Brasil.

Premiado como Melhor Filme Brasileiro no festival É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, “Copan” utiliza a rotina do edifício para discutir convivência, disputas políticas, transformações urbanas e os desafios de administrar uma verdadeira cidade vertical no coração da capital paulista.

O longa acompanha o cotidiano do edifício durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2022, disputadas entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL). Paralelamente à disputa nacional, os moradores também enfrentam uma eleição interna para síndico do condomínio, ampliando o clima de tensão política dentro do prédio.


“Quando você mora em um prédio como o Copan, com 5 mil pessoas, tudo é política”, destacou Carine Wallauer.

Com linguagem observacional, o documentário evita personagens centrais tradicionais e acompanha corredores, elevadores, cozinhas, reuniões e conversas cotidianas entre moradores e funcionários. A câmera conduz o espectador como se ele passasse um dia inteiro circulando dentro do edifício.

O olhar da diretora se volta principalmente aos cerca de 100 funcionários responsáveis por manter o Copan funcionando diariamente, revelando os bastidores da gestão e da operação de um dos maiores condomínios residenciais da América Latina.


“Eu já morava no Copan havia dois anos quando comecei a desenvolver a ideia do filme. Então eu já tinha relações estabelecidas, o que com certeza facilitou meu acesso e da equipe”, explicou.

Segundo a diretora, o formato do documentário surgiu justamente da possibilidade de circular pelo prédio sem interferir na rotina dos moradores e trabalhadores, permitindo um olhar mais íntimo e natural sobre o cotidiano do condomínio.

Affonso foi síndico do Copan durante mais de três décadas. — Foto: Luiz Franco/ g1

Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1966 na Avenida Ipiranga, o Copan possui 1.160 apartamentos, mais de 70 estabelecimentos comerciais e abriga mais de 5 mil moradores. O edifício completou 60 anos na última segunda-feira (25) e segue como um dos principais símbolos arquitetônicos de São Paulo.

Ao longo do documentário, o prédio aparece como um reflexo das transformações urbanas e sociais vividas pelo país. Entre os temas abordados está o crescimento das locações de curta duração por plataformas digitais, especialmente o Airbnb.

Segundo a administração do condomínio, mais de 200 apartamentos do Copan já são destinados ao aluguel de temporada. O número faz com que o edifício tenha atualmente capacidade de hospedagem semelhante à de hotéis de médio porte da capital paulista.

A discussão também atravessa a experiência pessoal da diretora. Carine contou que deixou o apartamento onde morava após a unidade ser vendida para se transformar em hospedagem temporária.


“Eu não moro mais lá porque o apartamento que eu alugava foi vendido para se transformar em Airbnb. É uma tendência especialmente crescente nas kitnets do bloco B, completamente descaracterizadas do projeto original para atingir um status de ‘instagramáveis’”, afirmou.

Segundo ela, o fenômeno evidencia processos mais amplos de especulação imobiliária e gentrificação no Centro de São Paulo, além de impactar diretamente a convivência e a identidade histórica do edifício.

Outro personagem central do documentário é Affonso Celso Prazeres de Oliveira, síndico do Copan por mais de três décadas e uma das figuras mais influentes da história recente do condomínio. Affonso morreu em dezembro de 2025, aos 86 anos.


Pré-estreia do filme aconteceu na segunda-feira (25), no Centro de SP. — Foto: João de Mari/g1

No filme, ele aparece conduzindo assembleias, debatendo regras internas e mediando conflitos entre moradores, sendo retratado como símbolo de poder e liderança dentro da estrutura condominial.


“Seu Affonso é uma figura complexa e marcante que dificilmente deixará de ser associada à memória do Copan”, afirmou Carine.

Mesmo após o encerramento das filmagens, a diretora diz manter forte ligação com o edifício, onde continua frequentando amigos e desenvolvendo novos projetos relacionados ao prédio.

Com a sucessão da administração após a morte de Affonso e novas disputas internas surgindo no condomínio, Carine acredita que o documentário permanece atual ao retratar um ambiente onde convivência, política, gestão e conflitos urbanos continuam profundamente conectados.




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