Por que tantos prédios caíram na Venezuela durante os terremotos? Entenda os fatores
Especialistas apontam combinação de tremores superficiais, falhas estruturais e construções antigas como principais causas da grande destruição no país
Por Anderson Silva
02/07/2026 - 10h49
Foto: Reprodução A Venezuela completa uma semana desde os fortes terremotos que atingiram o país em 24 de junho, em um cenário de devastação generalizada. Até a tarde desta quarta-feira (1), o saldo é de 2.295 mortos, 11.267 feridos, milhares de desaparecidos e um número de edificações danificadas que varia entre centenas contabilizadas pelo governo e quase 60 mil estimadas por levantamentos independentes, como os da NASA.
Diante da dimensão da tragédia, especialistas analisam os fatores que contribuíram para o alto nível de destruição, com destaque para o papel das normas antissísmicas vigentes no país e o grau de cumprimento dessas regulamentações nas construções afetadas.
A norma atualmente em vigor na Venezuela é a Covenin 1756-1:2019, atualizada em relação à versão de 2001, e estabelece critérios técnicos para análise, projeto e construção de edificações em áreas sísmicas. O documento prevê exigências como fundações adequadas, uso de materiais resistentes, dimensionamento correto das estruturas e fiscalização contínua durante a execução das obras.
Segundo especialistas, essas normas foram desenvolvidas ao longo de décadas justamente para reduzir os impactos de eventos sísmicos, incorporando lições de desastres anteriores e tentando elevar o padrão de segurança estrutural no país.
Apesar disso, análises indicam que diversos fatores contribuíram para a dimensão da tragédia. Um deles foi o chamado “duplo terremoto”, com dois tremores de alta magnitude (7,2 e 7,5) ocorrendo em sequência, o que compromete estruturas que já haviam sido enfraquecidas pelo primeiro evento.
Outro fator relevante foi a baixa profundidade dos abalos, com o segundo ocorrendo a cerca de 10 quilômetros da superfície, o que aumenta significativamente o impacto nas áreas urbanas. A localização do país, próxima ao limite entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul, também contribui para a alta vulnerabilidade sísmica da região.
Além dos aspectos geológicos, especialistas apontam problemas estruturais e de cumprimento das normas de construção. Muitas edificações atingidas teriam sido construídas antes da norma atual ou fora dos padrões exigidos, especialmente em contextos de informalidade na construção civil, prática comum em diversos países da América Latina.
O próprio Ministério da Ciência e Tecnologia da Venezuela reconhece que há preocupação com o nível de conformidade das construções, destacando falhas de fiscalização, uso inadequado de materiais e erros de projeto como fatores que aumentam a vulnerabilidade das edificações.
Os dados oficiais indicam ainda que 855 construções foram afetadas, sendo 189 colapsadas e 666 com danos severos, embora estimativas internacionais apontem números muito superiores. A NASA calcula quase 60 mil edificações atingidas, enquanto o PNUD estima que cerca de 8,6 milhões de pessoas foram impactadas e que os prejuízos podem chegar a US$ 6,7 bilhões.
Mesmo após o fim da janela crítica para resgates, equipes continuam atuando em áreas afetadas, especialmente em regiões como La Guaira, onde ainda há buscas por desaparecidos e risco de novos deslizamentos e eventos secundários.
Especialistas alertam que o processo de reconstrução será longo e complexo, podendo levar anos, diante do nível de colapso de infraestrutura em diversas cidades. O cenário evidencia a combinação de fatores naturais, estruturais e institucionais que ampliaram o impacto dos terremotos e colocaram o país diante de um dos maiores desafios de reconstrução de sua história recente.

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