Matrículas em cursos de Engenharia caem 26% e ampliam alerta sobre falta de profissionais
Queda no número de estudantes ocorre enquanto construção civil e infraestrutura enfrentam demanda por profissionais qualificados e novas competências tecnológicas
Lucas Teixeira, Alexandre Euzébio e Juarez Ramos da Silva ( Foto: Alexsander Ferraz/AT. Reprodução e Reprodução ) Matrículas em cursos de Engenharia caem 26% e ampliam alerta sobre falta de profissionais
O número de estudantes matriculados em cursos de Engenharia no Brasil caiu 26% entre 2015 e 2024, passando de aproximadamente 1,2 milhão para 887 mil alunos. O levantamento foi citado pelo Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada-Infraestrutura (Sinicon) com base em dados do Censo da Educação Superior, realizado pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
A redução ocorre em um momento em que setores como construção civil, infraestrutura e indústria enfrentam necessidade crescente de profissionais especializados. Para especialistas ouvidos por A Tribuna, a diminuição do número de estudantes pode dificultar a reposição de mão de obra nos próximos anos, principalmente em áreas que já apresentam vagas disponíveis.
Formação de engenheiros entra no radar do setor
O engenheiro civil e professor da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Juarez Ramos da Silva, afirmou que a redução de ingressantes, matriculados e formados representa um cenário de preocupação para o mercado.
Segundo ele, áreas como Engenharia de Computação, Civil, Produção, Mecânica e Automação já apresentam oportunidades que não são preenchidas com facilidade. A avaliação é de que a combinação entre menor número de estudantes e demanda por profissionais especializados pode ampliar a dificuldade de contratação.
O cenário também aparece em levantamentos sobre infraestrutura. Segundo dados citados pela CNN Brasil, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima atualmente um déficit de cerca de 75 mil engenheiros no mercado. Projeções atribuídas ao Confea indicam possibilidade de aumento expressivo dessa necessidade ao longo dos próximos anos.
Construção civil passa por transformação tecnológica
Além da quantidade de profissionais disponíveis, o mercado enfrenta uma mudança no perfil das competências exigidas pelas empresas.
O diretor regional do Sinduscon-SP, Lucas Teixeira, destacou que os métodos construtivos estão evoluindo rapidamente e que os profissionais precisam acompanhar novas tecnologias. Entre os exemplos está o BIM (Building Information Modeling), metodologia que permite integrar informações de diferentes disciplinas de um projeto, como estruturas, instalações hidráulicas e elétricas.
A transformação tecnológica também amplia a necessidade de profissionais capazes de trabalhar com ferramentas digitais e integrar diferentes etapas de um empreendimento.
Para o setor da construção, essa mudança significa que a formação universitária precisa acompanhar não apenas conhecimentos tradicionais de engenharia, mas também recursos que já fazem parte da rotina de projetos, planejamento e execução de obras.
Currículos precisam acompanhar novas demandas
De acordo com Juarez Ramos da Silva, instituições de ensino vêm incorporando conteúdos relacionados às transformações do mercado.
Entre os temas apontados estão BIM, inteligência artificial, sustentabilidade, meio ambiente, gestão de resíduos, drenagem urbana, mudanças climáticas, cidades inteligentes e Engenharia Urbana.
A diversificação das competências acompanha um cenário no qual a Engenharia deixou de estar concentrada apenas em métodos tradicionais de cálculo, projeto e execução. A atuação profissional passou a envolver também ferramentas digitais, eficiência, sustentabilidade, gestão e integração de informações.
Essa mudança tende a atingir diferentes segmentos, desde grandes obras de infraestrutura até empreendimentos imobiliários e sistemas utilizados na operação e manutenção de edificações.
Empresas também enfrentam desafio na formação de jovens
Outro ponto levantado por especialistas é a dificuldade de conciliar as exigências das empresas com a experiência disponível entre os profissionais mais jovens.
Alexandre Euzébio, diretor de Inovação, Ciência e Tecnologia da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos (Aeas), afirmou que parte das oportunidades oferecidas pelo mercado exige profissionais em nível sênior.
Segundo ele, a redução de programas consistentes de formação dentro das empresas cria uma dificuldade adicional para quem está ingressando na carreira: as organizações buscam experiência e alta qualificação, mas nem sempre oferecem caminhos estruturados para que profissionais recém-formados desenvolvam essas competências.
O descompasso pode atingir especialmente áreas que dependem de conhecimentos específicos e experiência acumulada para assumir responsabilidades técnicas.
Grandes obras podem aumentar a pressão por profissionais
A possibilidade de realização simultânea de grandes projetos também aparece entre os fatores de preocupação.
Na Baixada Santista, por exemplo, especialistas citados pela reportagem mencionaram projetos estruturantes como o túnel submerso entre Santos e Guarujá e a expansão da poligonal do Porto de Santos. Caso diferentes empreendimentos de grande porte avancem ao mesmo tempo, a demanda por engenheiros e outros profissionais especializados poderá aumentar.
O problema não se limita à contratação inicial. Obras de grande complexidade exigem equipes multidisciplinares capazes de atuar em planejamento, orçamento, projetos, execução, fiscalização, segurança, gerenciamento e acompanhamento técnico.
Nesse cenário, a disponibilidade de profissionais passa a ser um componente relevante para o cronograma e para a capacidade de execução dos empreendimentos.
Escassez pode pressionar custos
A falta de profissionais qualificados também pode produzir efeitos econômicos para as empresas.
Segundo Lucas Teixeira, a escassez tende a aumentar a pressão sobre custos e remunerações. Para as construtoras, antecipar necessidades de contratação e estruturar equipes passa a ser uma estratégia para reduzir riscos de interrupções ou dificuldades durante a execução dos projetos.
A questão ganha importância diante do aumento da complexidade dos empreendimentos. Quanto maior a necessidade de especialização, mais difícil pode ser substituir rapidamente um profissional que reúna experiência prática e domínio das tecnologias utilizadas.
Impactos chegam à infraestrutura e à construção
A redução das matrículas não representa, por si só, uma falta imediata de profissionais, mas cria uma preocupação de médio e longo prazo diante da necessidade de renovação da força de trabalho.
A infraestrutura brasileira já enfrenta desafios relacionados à disponibilidade de mão de obra qualificada. Estudo citado pela CNN Brasil aponta que a queda nas matrículas em Engenharia ocorre paralelamente a investimentos e demandas crescentes no setor, criando um possível descompasso entre formação e necessidade futura de profissionais.
Na construção civil, a questão também envolve produtividade. A combinação entre profissionais experientes, novos engenheiros e domínio de tecnologias pode influenciar a capacidade das empresas de desenvolver projetos cada vez mais complexos.
Engenharia precisa atrair novas gerações
O cenário coloca instituições de ensino, empresas e entidades do setor diante do desafio de tornar a carreira mais atrativa e aproximar a formação acadêmica das necessidades profissionais.
Além da expansão das oportunidades de estágio e programas de desenvolvimento, especialistas defendem a necessidade de preparar estudantes para tecnologias que já estão modificando a forma de projetar, construir e administrar empreendimentos.
A formação em Engenharia também pode alcançar áreas relacionadas à sustentabilidade, automação, inteligência artificial, cidades inteligentes e gestão de infraestrutura, ampliando as possibilidades de atuação profissional.
A queda de 26% nas matrículas entre 2015 e 2024, portanto, ocorre em um momento de transformação do setor. O número de estudantes diminuiu justamente enquanto construção civil, infraestrutura e indústria passam a demandar profissionais capazes de lidar com projetos mais tecnológicos e complexos.
Para o mercado condominial e imobiliário, o impacto potencial também merece atenção, já que engenheiros participam de etapas que vão desde projetos e obras até inspeções, manutenção, segurança e modernização de edificações.
A evolução desse cenário dependerá da capacidade de formação de novos profissionais, da atualização dos currículos e da criação de caminhos para que jovens engenheiros adquiram experiência. Enquanto o setor amplia o uso de tecnologia e enfrenta novos desafios de infraestrutura, a redução das matrículas coloca a formação de mão de obra especializada entre os pontos de atenção para os próximos anos.


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